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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Descer - Subir

    
Na minha visão extremamente ocidental, de saberes formais acumulados, digo subir para o norte e descer para o sul. Um motorista goiano conversa comigo, abala minhas certezas. Subir é pra Minas – altitude desenhada concretamente nas serras do percurso acidentado. Descer a gente desce é pros lados de Tocantins. E eu vou me apaixonando pelos poemas dos becos de Goiás. Aprendendo com Aninha o segredo dos doces sem açúcar.

Houve um tempo, adolescente desajeitada, um poetar inconsciente, preso à dificuldade de expressão oral e à necessidade mais premente de transformar as horas em pão... Nesse tempo, eu descia divagando com Manuel Bandeira do Capiberibe à Guanabara. "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco".

Morri em várias noites lacrimejantes acreditando que o verso mais bonito da Literatura Brasileira fosse "a vida inteira que podia ter sido e que não foi". Mas, se fui moça de letras tristes, soprou-me recentemente um vento de través, da nuca para a menina dos olhos, que é possível amadurecer com outras cores. Apurar, no fruto, perfumes outros.

Agora, minha janela se abre para a Serra Dourada. Todas as leituras de minha vida costuram-se em um novo mapa-mundi. Azuis e verdes google são nada quando se trilham tempos e espaços reais por estradas que desconstroem a noção norte-sul.

Descer-subir. Agarro-me à fala do motorista. É a minha certeza neste momento. Eu, que ainda preciso tanto de certezas,... vejo-me diante de novo verso para chamar de o mais bonito da Literatura Brasileira: "tu encontrarás, sempre, no teu caminho, alguém para a lição de que precisas".