sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A poesia das noites



       Agora são exatamente 16:04’39”. Estou no meu quarto ouvindo música. Tá uma chuvarada danada aqui.

Estou em meu quarto, sim, mas o relógio marca horário diverso. É bem mais tarde este meu momento de escrita. Não ouço música. O eco da solidão é o único fenômeno sonoro da madrugada neste ambiente. As frases iniciais não são minhas. Capturo-as de minha leitura, para usá-las como mote. Transcrevo-as apenas. Apenas?! Há tanto envolvido nessa transcrição! Mãos e olhos nervosos, coração agitado e... paredes vazias, cama vazia.

Também não chove aqui. Pelo contrário. A fumaça das queimadas tem me feito passar terríveis apuros. A dor da mata se consumindo em chamas, a dor da ignorância e da falta de ações preventivas, a dor da impotência, e a dor física da secura instalada no nariz, na boca, na garganta. Há ainda as cinzas que, trazidas pelo vento, cobrem o chão da área, dando-me desgastante trabalho.

Ouvi rumores de uma greve dos correios. O fato não me abala. Todas as contas estão em débito automático. Qualquer outra correspondência não haveria mesmo de chegar. Há muito os correios já decidiram fazer-me greve.

Assisti certa vez, não sei se em filme, se em novela, a uma cena em que a personagem ateava fogo a correspondências antigas. Ato inválido para minha memória! A deleção de objetos concretos em nada pode modificá-la. Ademais, minha sensibilidade física à fumaça é algo que me acompanha desde tempos remotos. Impossível qualquer rebelião feita a fagulhas.

Igualada ao relógio, busco números. Aqueles que me obrigam a levantar, a sair de casa, a voltar para casa. O ritual de chegada é sempre o mesmo. Antes de abrir a porta, confiro a caixa de correios. Um minuto – de devaneio, fantasia, esperança – imediatamente suplantado por outro minuto – algoz. Diz a sabedoria que o tempo não passa, a vida é que se esvai.

As cartas que leio hoje são as que já li outrora, amareladas e rotas, mas ainda com os verbos no tempo presente. Mudam-se as circunstâncias interpretativas. As palavras escritas, estas jamais se alteram. Enlevada pelo dom de Mnemosine, faço delas a música que me falta. É a poesia das noites em que não consigo compor.
   
    

domingo, 21 de agosto de 2011

As bonecas invertebradas de Letícia


http://tendenciadolescente.blogspot.com/2011/02/um-vicio-bonecas-pullips.html


Olha! As bonecas da Letícia são invertebradas! – exclama meu filho, anatomista mirim, às gargalhadas, após virar e desvirar por várias vezes as articulações dos braços e das pernas de duas bonecas da prima. Ali perto, no mesmo quarto em que Letícia brinca de modista no computador, estou sentada em uma poltrona a ler um livro. Interrompendo a leitura, ergo os olhos e volto-os para as bonecas, imitações de bebês, retorcidas, mas inteiras.

Vem-me à lembrança a época em que era eu quem tinha bonecas, quando meu irmão arrebentou a articulação da perna de um boneco meu. Meu pai improvisou um remendo com um elástico por dentro.

Vem-me à lembrança também a imagem da primeira boneca que tive, com os cabelos todos chamuscados pelo fogo devido à minha descuidosa reincidência após a ameaça de um tio, caso encontrasse de novo algum brinquedo espalhado pelo chão da sala de casa.

Vem-me à lembrança ainda um poema de Olavo Bilac, com o título mesmo de “A boneca”, em que ele a apresenta rasgada ao meio por duas meninas que disputam o brinquedo.

Bonecas perfeitas, bonecas danificadas... brincar era o que dava leveza ao peso de conhecer o mundo, de conhecer a crueldade do mundo... Depois? Depois trocamos os instrumentos do brincar por outras formas de conhecer... Perdemos a ingenuidade...
   


quinta-feira, 14 de julho de 2011

O caso da doceira



Um dia o irmão adoecera. Os gemidos passaram a ser ouvidos constantemente. As lágrimas da mãe tornaram-se habituais. As visitas da família – enorme! – também viraram rotina.

Se para fugir da aflição que se abatera sobre a casa... Se para sentir-se útil... Se para sentir-se notada...? O caso é que decidira fazer doces e oferecê-los aos parentes que vinham principalmente aos domingos e feriados. Oferecia-os também aos médicos, à solícita enfermeira, ao padre... aos vizinhos.

Aos poucos, foi perdendo a sensibilidade para as flores e seus perfumes. Os olhos severos e impassíveis exigiam apenas os frutos e já os viam macerados, premidos, cozidos. Sabia de olho a quantidade de açúcar a deitar sobre eles. O tempo de fogo. O doce no ponto. E, quando os gemidos e as lágrimas aumentavam, tanto mais o vigor da colher de pau. Só a massa desprendendo-se do fundo do tacho de cobre caramelava-lhe a vida.

Cuidava dos tachos como se fosse a si própria. Provavelmente até com mais afeto. Nada de azinhavre. Os tachos foram delimitando seu espaço na casa. A fama de doceira foi delimitando seu espaço na família, no mundo.

Em uma tarde de muitas jabuticabas a colher, a agonia do irmão de repente crescera. O padre veio às pressas.

Ouviu-se, momentos mais tarde, um último som lancinante. Um tio correu a tomar as providências. Os olhos da moça-doceira transformados em fios de calda de açúcar, numa cachoeira sem fim. A mãe fitou-a desconsoladamente. Caminhou até ela. Tomou-lhe das mãos a colher de pau e dirigiu-se ao tacho sobre o fogão.

Se para fugir do desatino... Se pelo domínio febril... Se por hábito de dor...? O caso é que a mãe – e ninguém mais – continuou a fazer doces naquela casa.
 

domingo, 3 de julho de 2011

Lorem Ipsum



Tu questionas o meu silêncio. Não compreendes meu ritual de contemplação. Não vês que, quando adormeço em teus braços, a noite atravessa meu corpo. Soturna, ela rouba-me todas as palavras, até as apreendidas de outros idiomas. Depois, já serena, deposita-as uma a uma nos sonhos que, pela manhã, tu esquecerás que sonhaste. Não é a memória que te faz existir. Tu só existes porque me calo.

Eu até poderia fazer-te crer que sempre há tempo para o diálogo. Prefiro, no entanto, mostrar-te que sempre há tempo para o alimento e para o amor. A cozinha é a parte viva da casa. Panelas fumegantes e aromas vários. Eu tempero as emoções, ofereço-as a ti em pratos irrecusáveis. Mais tarde outro aposento torna-se a parte viva da casa. O vinho de apurada degustação... A iguaria ainda mais desejada...

Mas insistes.

É preciso que eu diga algo?

Se assim queres, eu digo. Falo-te de uma eternidade de angústias acumuladas na pele envelhecida. As lágrimas surgem. Inundam os sulcos cavados pelo tempo. Falo tanto! Até que estejam apagadas todas as luzes, as estrelas do céu, as estrelas do meu olhar...

Tu escutas. Vais-te fazendo outro. Lívido! O silêncio agora é teu. Passas a te conhecer em minhas palavras. Tu te afastas. Viras pó ante o vento incrédulo. Transformas-te no homem que és. Deixas de ser o meu amado.

A casa se desfaz. Escombros inertes pelos quatro cantos...
 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

a minha língua na língua de

 

Tenho pouco conhecimento. Aquele que me foi permitido construir entre as horas de trabalho necessárias à sobrevivência, ainda desde a infância, e o difícil acesso a livros que não chegavam às bibliotecas das escolas públicas nas quais estudei ou – tanto pior – ficavam trancafiados naquelas mesmas bibliotecas sob a alegação de que se estragariam nas descuidadas mãos infantis das famílias pobres.

Faço, porém, uma ressalva. Pode ser pouco, mas é conhecimento. Não é apenas acúmulo de informação. Eu soube, apesar dos acordos MEC-USAID, extrapolar o conhecimento enciclopédico e os limites do ensino propedêutico. Não perdi o hábito do questionamento. Não aceito pacotes de informações rotuladas.

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. Aquele que, diz a lenda, deixando perecer a companheira, salvou bravamente (ou por vaidade?) seu manuscrito de um naufrágio. Legou-nos Os Lusíadas, mas também imortalizou alma minha em um de seus sonetos.

Gosto de sentir a minha língua também na língua de outros que contam e encantam, já desenfronhados do apelo colonizador, para além do peito lusitano. Gosto de ler outras almas poéticas que não a minha. Outros conhecimentos.

Gosto de sentir a minha língua na língua de Patativa do Assaré. Aquele que um dia deixou registrado: “Prefiro falá as coisa certa com as palavra errada a falá as coisa errada com as palavra certa.”

Prefiro ler um exemplo de concordância em desacordo com a norma culta da língua em um texto que explica a variação e o preconceito linguísticos – pois que entendo aí a explícita intenção textual – a ler em cronista conceituado “as normas e princípios que regem o idioma (...) devem ser questionados e discutidos”. A falta de paralelismo sintático em textos que se propõem isentos de incorreções em relação à norma culta incomoda-me muito mais. Passa, no entanto, despercebido de tantos que dizem dominar essa mesma norma.

Insisto, uma vez mais, no meu pouco conhecimento. Em meio a tantos defensores do saber preconizado pelas mídias redentoras, sou praticamente como uma bruxa a fugir da fogueira. Se cá me encontram a ler meu exemplar de Cordéis ou a satirizar “alma minha gentil”, por certo que me darão a conhecer o Malleus Maleficarum. O sucesso midiático é que redime o ser humano.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

No bordado das almofadas



Vou retratar a Marília,
A Marília, meus amores;
Porém como? se eu não vejo
Quem me empreste as finas cores:
Dar-mas a terra não pode;
Não, que a sua cor mimosa
Vence o lírio, vence a rosa,
O jasmim, e as outras flores.

Ah! Socorre, Amor, socorre
Ao mais grato empenho meu!
Voa sobre os Astros, voa,
Traze-me as tintas do Céu.


Hoje vou ser feliz, porque o amor, esparramado no bordado das almofadas, me convida a olhar, pela janela, o céu de maio, limpo, azul tão quase quanto os olhos que não são os meus nem os seus. Nem me importa quem está brigando pelo título de homem mais rico do mundo. Sem pecúnia alguma, somos nós agora mais ricos ainda!

Tem a mim o amor, sobre essas almofadas, em arroubos neoclássicos. O espaço de maio aclara flores de seda coloridas, tão ostentosamente bordadas por próprias mãos. Misturam-se ao tecido nuances outras de um arco-íris surgido das águas íntimas de nossos corpos. Trânsito livre para as tintas do céu!

Um mote deste? Dois parágrafos a escorrer assim? Vejo assustados os olhos do leitor, habituado que está à minha generosa e expansiva angústia!

É que, logo pela manhã, se apossou de mim aquela vontade de remexer prateleiras de livros. E havia um, espremidinho entre volumes mais colossais. Justamente este de Tomás Antônio Gonzaga. Peguei-o. Folheei-o desprevenidamente. Os olhos caíram sem pretensão por sobre a Lira VII e, a seguir, voaram, para o vaso das delicadas flores de maio. Ah! instalara-se o mal! A razão se viu atribulada por rítmicas bucólicas.

Não pense, entretanto, leitor, que perdi de vez o insensato juízo. Para que não diga que estou louca e distraidamente a escrever sobre flores, cores e amores, para que não diga que não pensei em pedras, vou confessar-lhe. Nenhum trabalho manual é solitário. Acompanha-o a voz muda do pensamento. À proporção que o fazia, recitava o mais famoso poema de Drummond.

No bordado das almofadas, cada ponto repetia o meio do caminho para afugentar a vistosa paleta da pintura de Marília. No compasso dessas minhas Minas, o coração voava, acompanhando os olhos. Espatifou-se de repente? Pedras deste chão de Ouro Preto sem salvação! Em alguma das laçadas o amor me socorreu. Gritou que eu esquecesse a pedra. Fiquei exatamente costurada aos versos centrais: “Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”.

Assim foi que não dispensei o mote nem qualquer desses parágrafos. A terra se tinge de todas as tintas. A minha literatura se faz de todos os poetas. Qualquer que seja o livro, lá encontro a minha riqueza. Qualquer que seja a letra, a palavra... lá os bordados são Amor.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Os girassóis na gaveta

     
Apertou a toalha ainda mais ao corpo. Não estava frio. Mesmo assim os arrepios não passavam. Os chinelos recostados na entrada do banheiro. Notícias de morte vinham pela TV. Para que o aparelho ligado já tão cedo? A porta entreaberta deixava refletir no espelho a foto que ficara sobre o criado mudo, um tanto difusa pela luz do dia. A lembrança do sonho persistindo...

O odor úmido de sabonete fazia dissipar do ambiente a ausência de cheiro de amor. Já nem sabia mais por quanto tempo estava sozinha. Mas, caprichosamente, tirava a poeira dos móveis do quarto diariamente. Com a mesma frequência trocava a roupa de cama. Gostava de lençóis com estampas de flores. Era o perfume de suas noites. Ah, como ela se fazia pelo olfato!

Qualquer cor de roupa preta lhe serviria, entretanto o ânimo para se vestir estava perdido entre os girassóis na gaveta. A mesma gaveta em que outrora ela havia aninhado delicadezas, babados e abstrações. Preciosidades de uma época em que se vestia romântica como seus devaneios.

Levantou a mão para ajeitar uma mecha de cabelo. A toalha caiu ao chão. Em gesto rápido e decidido pegou-a e atirou ao banheiro. O olhar bateu em cheio no espelho. A foto... Fosse talvez o momento de jogar longe outros objetos também. Despir-se das lembranças...

Antes, porém, convinha desligar a televisão. Convinha guardar o livro que lera pela madrugada. Praticidade e organização sempre lhe foram palavras caras. Pela primeira vez prestou atenção nos sons que vinham da rua. Convinha vestir-se. Dirigiu-se à cômoda. Hora de reencontrar-se por entre os girassóis.

 Montagem de girassóis em foto de Alison Brady
(http://www.fotolog.com.br/nistrix/35123868)
    

segunda-feira, 18 de abril de 2011

De pano ordinário

    
Homenagem a Monteiro Lobato 

http://pt.scribd.com/doc/7073594/Monteiro-Lobato-Sitio-Do-PicaPau-Amarelo-Vol-1-Reinacoes-de-Narizinho. p.9.


Escrevo. Que é para dar corpo às lendas de um reino de águas claras perdido no labirinto dos pensamentos. Falar somente é, não raro, por demais difícil. Torneirinha travada por forças que incidem de fora para dentro. Não há pílula que destrave.

Há grande vantagem no ato da escrita. O material desses pensamentos vai, pelas letras que se crivam em espaço propício, costurando a mulher que perdeu os olhos de boneca. No fazer e refazer das vestimentas, as agulhas do constante coser brincam de unir a vida real aos espaços antigos da fantasia. Não se enganem, porém: o pano continua ordinário.

Alguns belos vestidos ainda ocupam os armários da lembrança. Havia um na infância primeira, feito todo de retalhos, sobras do que emoldurou as vontades da clientela de minha mãe, xadrezes estreitos, poás e minúsculas estampas de flores, com predomínio da cor laranja. Tinha gosto de sol. Iluminava a pele. Àquela época eu lia as mil e uma noites de Sherazade e as histórias da Carochinha. Nada de Monteiro Lobato.

Depois outro vestido, bem comportado nas manguinhas bufantes e no comprimento pouco acima dos joelhos. Sabe como é, aquela trova – ai, acho que já me esqueci – algo assim “sou pequenina da perna grossa, vestido curto papai não gosta”. Vestido amarelo. A pele ainda mais iluminada! Fazia até os olhos brilharem. No suceder das alvoradas, o exercício da escrita deixou de ser apenas curiosidade, virou processo de conhecimento. Comecei a me saber, em mim e também nos outros. Dentre as tantas novidades, visitava o Sítio do Pica-pau Amarelo às 17 horas de todas as tardes, na mágica em preto e branco do mecanismo de teletransporte.

Houve, depois, um vestido vermelho, de tecido fino e bordado brilhante, para a formatura do grupo escolar, longuete, cuja barra foi, aos poucos, subindo, para acompanhar meu crescimento e alimentar as laterais que, no mesmo compasso, precisavam crescer. Não me lembro se a menina do nariz arrebitado usou algum dia vestido vermelho, mas eu li todo o seu livro e todos os outros de sua gente. Com aquele vestido, embora descalça pela ausência do sapatinho de cristal que nunca perdi, fui princesa durante certo período – o borralho em alguns pares de horas tornava-se invisível .

Fui crescendo. O Sítio se esvaindo dos novos sonhos. Hoje, em um guarda-roupa de recordações somadas aos novos acontecimentos, o colorido das fazendas se modificou. Amei e deixei o país da Gramática. Retornei. Nunca usei o mais belo vestido, feito pela melhor costureira do reino. Os vestidos nunca foram de seda. Continuo feita de pano ordinário. Os fios do meu escrever, entretanto, tenho tentado deixá-los cada vez mais resistentes. Na criação da palavra que lanço ao papel, sou a aranha, que sabe fazer vestidos lindos, lindos até não poder mais! Eu mesma teço a fazenda, eu mesma invento as modas.
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cinema mudo


Vem ele. De boné como sempre. Olha para mim. Às vezes não consigo entender seu olhar. E esse é um dos olhares que não entendo. O brilho apagado, pondo no rosto a angústia que a alma insiste em disfarçar. Olha para mim. Os lábios mal se movem no bom dia de soslaio. Há tanto a dizer, porém!

Pega das ferramentas e inicia um conserto desnecessário que, pelo movimento nervoso de suas mãos, se faz parecer urgente. Pode ser que peça um copo de água. Só para quebrar o silêncio. Eu fico esperando. Se o pedido não vier, o copo de água se fará oferta em minhas mãos.

Continuo ali inerte. Meus olhos, entretanto, são câmera para cada movimento dele. É o meu jeito de fazer cinema mudo, com fantasias que me preencherão o pensamento de fim de noite, à espera do sono. O ouvido na expectativa de uma provável melodia que brotará do espírito inquieto.

É assim. Ele não fala. Mas canta fragmentos de sua dor. Ou revela harmonias que traduzem seu desejo. Seu desejo sou eu. Por isso capto todas as notas. As doloridas, para alimentar minhas lágrimas de garota romântica. As sequiosas, para nutrir meus anseios de mulher apaixonada.

Estendo o copo d’água. A luz que incide sobre o líquido transparente decompõe a menina tímida e o vulcão aprisionado. É desse jeito, partida em duas, que me mantenho viva em seu universo. O trabalho que ele nunca concluirá pela inabilidade no manuseio das ferramentas. O movimento nervoso por todo seu corpo.

Nessa hora, a água tem cor, tem cheiro, tem gosto, derrama-se por todos os espaços do sentido. Ele finge outra a sede que de fato sente. Bebe toda a água. Depois olha para o copo vazio e põe no rosto todos os mistérios indecifráveis de seu silêncio. As mãos, automaticamente, voltam-se para as ferramentas.
   

sábado, 2 de abril de 2011

PRECONCEITO? Tô fora!

    


Talvez motivados pelos recentes escândalos, alguns amigos sugeriram-me escrever alguma coisa em que eu abordasse o preconceito quanto ao sexo.

Gente, olhem bem para mim! Lembram-se de que em nossas famílias sexo era assunto tabu? Mãe não falava nada além de umas noçõezinhas bobas sobre o funcionamento do corpo humano, que ficavam bem aquém das aulas de Biologia, e – o mais importante com certeza! – uma advertência para que sempre seguíssemos o sexto mandamento das tábuas da lei do Catolicismo. Acho que continuo repetindo o modelo. Não sei falar sobre sexo.

Até posso ter cometido o deslize de contar a uma ou duas amigas que, vez ou outra, faço amor comigo mesma. Mas fica apenas na declaração. Sem qualquer instalação mais ampla das instâncias descritivas do texto oral.

Sei falar de literatura. É claro, muito mais pelo aprendido na rua do que pelo ouvido em âmbito familiar. Nesse campo, sim, tenho experiências bem descritíveis. Não queiram, entretanto, fazer-me perguntas difíceis ou obrigar-me a explicações acadêmicas e palestras didáticas. Não sou nenhuma Rita Rostirolla. Detesto debates de crítica literária. Literatura para mim é intensificação do prazer da vida. Só isso.

Na literatura tenho minhas preferências. Uma delas é Gertrude Stein. Mas abro o leque: Clarice Lispector, Cecília Meireles, Alfonsina Storni, Florbela Espanca, outras mais... até Adília Lopes, apresentada há pouco por uma grande amiga. Tudo bem, por conta de Diadorim até trago Guimarães Rosa para dentro deste seleto clube.

Gente, insisto, olhem bem para mim! Não sei falar sobre sexo. Não sei falar sobre preconceito. Aliás, preconceito, tô fora!
 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Como todos os dias


Pois não é que, como todos os dias, o despertador tocou às seis da manhã? E, como todos os dias, tomei o cuidado de pisar o chão com o pé direito ao levantar-me da cama. Segui, quase como sonâmbula, para o banho.

A busca pela temperatura ideal da água (mornitude, mornidez, mornidão?). Como todos os dias, a tentativa da palavra para a minha expressão. Vem daí meu gosto exagerado pelos parênteses, pelos travessões, pelas reticências, que já nem mais causa incômodo ao meu leitor. Mais tarde – fico com a pulga atrás da orelha e o comichão que se instala precisa de sossego – o dicionário resolveu minha inquietude. Pois está lá: mornidão, mornez, mornura. Não me satisfazem. Seleciono tepidez. A água tépida vem prolongar a sensação de cama e lençóis macios.

Pois não é que, apesar do corpo dormente, nu e molhado, os ouvidos insistiram em uma conexão exterior e não deixaram de captar o som do interfone? Com os fios de cabelo densos de xampu, fico dividida entre o pronto atendimento e a impossibilidade da ação. Não consigo simplesmente ignorar o chamado. Chego a ensaiar um processo de aceleração, mas a espuma sinaliza a inutilidade do afobamento. A ausência de um segundo toque parece, a princípio, um alívio.

Minutos depois, estou já à mesa do café. Entre queijos e geleia, pairam algumas interrogações: quem seria àquela hora? o que estaria a querer a visita? apenas mais um indigente? A acusação devedora da consciência. “Bati à tua porta e não abriste.” Vou, como todos os dias, carregar por não sei quantas horas a sensação de culpa. Como daquela vez em que errei o caminho na rodovia e, mesmo o problema resolvido, martelava-me a cabeça a noção de que há erros evitáveis. Como quando, preocupada com a finalização de um trabalho, me esqueci de uma consulta médica. Depois, impingi-me ritos de penitência até a marcação da nova data.

A vida é sempre inexata, sem estrofes isométricas e versos alexandrinos na cadência de cada dia, ainda que levantemos com o pé direito em respeito ao cronômetro que marca o nosso despertar físico. Porque a tepidez da água, em algum momento, se transmutou de salvação para tortura. Não, não foi o calor da água. Tudo são os meus questionamentos, para os quais insuficientes se fazem as superstições e a religião.

Um dia, esquecida de qualquer princípio e despida de qualquer girassol, não me importarão quantos sóis se levantam por entre os horizontes do meu espaço. Se a sonolência se fizer ainda dona do meu instante, atirarei o despertador pela janela. Atenção, distraídos que estejam a tocar o interfone: alguém nessa casa pode, desvencilhando-se das amarras do tempo, descobrir-se livre, sem colocar um aviso na porta...
   

domingo, 20 de março de 2011

Das coisas e dos excessos

  


Converso com uma vizinha, senhora idosa. Mora com a filha médica. Na conversa percebo o orgulho pela profissão valiosa da filha, derramado na exaltação do trabalho em excesso. Percebo também, bem mais que isso, o falar, mineiro, caipira.

Mineiro do interior diz que vai de a pé. Tem gente que não gosta de ouvir. Tem quem zombe e quem queira corrigir. Sou mineira também. Gosto de comer abóbora, angu, quiabo e ora-pro-nobis. Sou mineira também, de pouca fala. Vou escutando aquela senhora assim como escuto a tantas pessoas. Falo pouco, mas gosto dos excessos. Gosto da excentricidade dos conectivos.

Pois deixem que a filha da minha vizinha tenha, como eu, andado muito de a pé quando estudante do grupo escolar, do ginásio, do colégio. A sintaxe da língua do povo, tão música nossa! Abaixo a hipocrisia dos que se julgam mais maestros. Eu tenho aprendido tanto de (com) viver com as pessoas!

A velha senhora me convida a entrar. Um cafezinho. Dispenso. Vou tomá-lo, daqui a pouco, já em minha casa. Gosto dos conectivos. Gosto igualmente da ausência deles. Sua ausência é descobri-los ocultos, no cruzamento de outras paragens. Ando de a pé nesse terreno, desvelando o silêncio resguardado, em cada trilha, nos gestos e nos olhares.

Entro em casa. Antes, retiro, na caixa de correio, o exemplar da revista mensal que assino. Na última página, um poema, As coisas, de Arnaldo Antunes. “As coisas têm peso, massa, volume, tamanho,” etc. Somente vírgulas. Nenhum conectivo. Último verso: “As coisas não têm paz”. Às vezes, pessoas são coisas... A verdade da sabedoria mineira sopra silenciosa em meus ouvidos: a paz está nos conectivos e seu excesso é excesso de paz.

Vou até a cozinha. Fazer um café. Café mineiro de coador de pano, pois é dele que preciso, é dele que gosto. Café de uma mão só, que segura a asa da caneca esmaltada. A outra mão, livre, trabalha apaziguando pensamentos e distribuindo excessos, em vagarosa abstração, imitando a concretude dos passos no compasso das muitas andanças, das conversas e dos silêncios.

quarta-feira, 9 de março de 2011

As flores de hoje

         
Foto: Arquivo Pessoal


Chego em casa e encontro flores. Um buquê de rosas vermelhas que não me surpreende. Um cartão assinado no qual se lê um elogio à minha beleza. Beleza? Os olhos tristes se perguntam. Onde, no corpo da mulher sem a alegria de se sentir amante e amada? Onde, na alma da mãe que não se percebe no futuro dos filhos? Onde, na memória da filha que não se vê íntima da mãe? Onde, na solidão da amiga que não avizinha mais o milagre da partilha?

Deprimida? Sim... talvez fosse este o diagnóstico psiquiátrico. Mas a dor feminina vai para além da produção de dopamina e do frasco de fluoxetina ou qualquer substância carregada de promessas semelhantes.

Promessa é bem a palavra-chave que sintetiza a cor rubra dessas rosas em botão. A vida interrompida antes da plenitude da flor totalmente aberta. A cor que se empresta como símbolo à paixão e à guerra. O sangue que se derrama pelas ardências alheias e acena, sublime, com a glória e a redenção. Esperá-las-ei, abismada, louca, chorosa.

A praia de areias brancas e águas azuis já não é a paz sonhada, pois que essa paz se perdeu em um par de olhos fugidios e medrosos. Em alguma montanha, que, em breve, a tudo desmoronará... em alguma montanha para trás do sossego, “além, muito além daquela serra que ainda azula no horizonte”... lá, esses olhos. Lugar algum se faz livre dos terremotos da alma feminina.

Não há vaso em que possa acondicionar essas flores. O coração, entretanto, aperta-se ante o provável gesto de atirá-las fora. Lixo é destino insólito para qualquer criatura. Deve haver no armário qualquer recipiente que lhes sirva de abrigo durante seu passar efêmero por minha casa, por minha vida. O mais complicado mesmo é descobrir que fim dar ao cartão que as acompanha – “Ai, palavras, que estranha potência a vossa!” 

Ah! A causa das flores... esqueci-me... hoje é Dia Internacional da Mulher. Mulher? Os olhos tristes se respondem.

sábado, 5 de março de 2011

Sons e cores do não-carnaval



Mas... olhai, oh meus olhos saudosos dos ontens
esse espetáculo encantado da Avenida!

(Mário de Andrade, O Domador)

Juro que tentei escrever alguma coisa interessante, mas esta chuva que não dá trégua roubou-me toda a inspiração, lavou-me a facilidade de expressão. Sou movida a sol. Ademais, não sei falar de carnaval. Sei carnavalizar, viver o samba na carne.

É bem provável que o título com que nomeei a minha crônica tenha soado estranho. Em minha brincadeira linguística transformei o “não” em prefixo. Este é, entretanto, processo comum em Língua Portuguesa. Claro, a gramática não cita. Assim como não aborda a ocorrência desse advérbio de negação após o verbo. No entanto, a musiquinha que tem marcado o carnaval deste ano diz “quero não, posso não”.

Não é minha matéria, todavia, a estranheza do processo de formação da palavra, e sim seu significado. Trago aqui os sons e as cores do que não estou a viver. “Ensaiei meu samba o ano inteiro, comprei surdo e tamborim.” Hoje, na passarela, o som da chuva nada tem de parecido com a sonhada alegria. Sem pretensão ao recolhimento, mas o que fazer de um feriado de carnaval em que só chove? Principalmente quando a idade já não transforma cinza em azul? Desfiz-me dos arranjos. Tentei adiantar o calendário, trazer a quarta-feira para dentro do sábado. Frustrei-me.

“Gastei tudo em fantasia, era só o que eu queria.” O luxo dourado, nas unhas, na maquiagem, no vestido, ficou feito saudade trancada no peito. O sol ausente desfavoreceu a boa colheita. Imensos campos de trigo cobertos de um escuro pálido e vil. Agora tudo é apenas insanidade pagã. “Traje de losangos... cinza e ouro...” É possível um carnaval sem brilho? Algo que, ainda assim, receba o adjetivo “arlequinal”?

É por isso que me condenei à escrita, mesmo desprovida das lantejoulas e dos confetes. Escrevo o que vivo. O que não vivo também escrevo. Difícil!

Constato, no frio da chuva constante, que me sobra nova atividade: costurar. “Em retalhos de cetim, eu dormi o ano inteiro.” Vou lá, recolho das minhas horas de sono o alento. Emendo-os no ofício. Um poeta que é trezentos, trezentos-e-cincoenta e uma canção que, não sei por quê, ficou na memória servem de agulha e linha a unir os fragmentos – nada é palavra minha afinal... A chuva tomou-me todos os adereços.
   

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Alencares

 
Romântica desde a tenra idade, habituei-me, nos meus 15 anos, a chorar no banheiro lendo trechos de O tronco do ipê. Por aquele tempo, eu havia lido praticamente toda a obra de José de Alencar. Só mais ao fim da segunda década de vida é que fui afeiçoar-me ao bruxo do Cosme Velho. Antes disso, povoei meus sonhos de lencinhos, lágrimas e desmaios.

Pouco sei da biografia do escritor, além do básico que se vê na escola. Também pouco li da crítica sobre sua obra. O que me marcou foi o fato de ele nomear uma boa parte de seus livros com nomes femininos. Personagens que, embora idealizadas e planas, como afirmam as características da periodização estilística, se mostram mulheres fortes, determinadas e batalhadoras.

Gosto de dizer, em minha ignorância literária carregada de especulações, que Machado nos apresenta uma série de personagens que se constituem pela fragilidade, homens sem atitude. Alencar nos presenteia com Iracema, Lucíola e outras senhoras que ousam desafiar os costumes sociais, ainda que por eles cerceadas a ponto de sucumbir.

Tempos depois conheci outro Alencar (daí o plural do título); este, não pela literatura. Assim sendo, sei menos ainda falar de sua obra. Diferentemente do homem de Mecejana, este outro é mineiro. E, como tal, quietinho, foi crescendo, até que um dia, fiandeiro que era, teceu tanto a seu redor que não coube mais em si. Tornou-se figura pública.

Leio neste momento nota da imprensa sobre ele. Talvez a semelhança de nomes, talvez a textualidade, algo me leva, de um a outro, a divagações. Talvez a divagação seja simplesmente a nossa inútil necessidade de entender os mistérios da vida. É por aí que a literatura me vem densa. É por aí que crio analogias, repito metáforas e leio emoções.

Homem, de atitude, nada plano, José Alencar expõe diante de mim uma de suas faces. Sob a aparente serenidade, anos de luta contra a doença, que ele tem ousado desafiar por mais que ela o cerceie. Em sua última aparição pública, o ex vice-presidente disse: “Se eu morrer agora, vou morrer feliz”. Juro, Lúcia, a do romancista, diz isso a Paulo em alguma das páginas do livro. Bem... deixemos, por ora, os romances. A vida real, refletida nos múltiplos espelhos de nossa percepção, é a matéria.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Café com trem

 
Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista

(...)


É certo que já não eram os tempos gloriosos da RFFSA, mas cheguei a andar um tantinho bom de trem. As andanças tinham cheiro de interior. Quando as reconstruo, no entanto, puxando pela memória, pinto as imagens com certo glamour. Na trama das minhas letras brinco às vezes de ser Scarlett O'Hara e, mais amiúde, invento uma chuva de flashes e, como chão, um red carpet .

Embora tenha começado, mineiramente, falando de trem, pensei mesmo foi em falar de café. Quando criança, detestava. Ainda que o leite fosse escasso era ele a minha preferência e, se não o houvesse, eu nada bebia. Mas é que eu gostava mesmo era do embalo do trem. Diversão pura. Café parecia coisa de gente grande.

A primeira vez que andei de trem (mineiro não viaja de trem; mineiro anda de trem!) foi em minha cidade natal, um passeio para ver os parentes interioranos. Entre eles, minha madrinha. Disseram-me que o café dela eu beberia. Tão fraquinho! Achei mais horrível ainda, tanto o sabor quanto a cor. Uma água de batata ou, termo muito usado na minha terra, uma changuana.

Só fui beber café quando já trabalhava. Associei as duas ações. Muitas horas passadas no trabalho forçaram o paladar, geraram o hábito. Quanto mais vontade de pausa, mais necessidade do cafezinho. Aprendi a apreciar o aroma, a querer o calor nos lábios, a gostar do encorpado da bebida. Mas, como mineira, limitando-me ao tradicional. Essa coisa de expresso, de maquininha, só mesmo para as bandas de São Paulo. Na defesa de meu território, criei estratégias para seu preparo. E, para usar outra expressão da terrinha, desenvolvi "uma mão boa" para fazê-lo. Café que levanta, que traz de volta o ritmo, que dá força, muita força.

Estava, na semana passada, em viagem na companhia de uma amiga que é alucinada pela bebida. Sentamos em uma cafeteria. Experimentei um, com certa dificuldade na hora do pedido, é óbvio. Há sempre a possibilidade de não gostar e, agora, adulta demais para preferir leite. A amiga já pronta, segura. O garçom me olhando, quase a dizer "e aí?" e eu ali, temerosa, indecisa. Enfim, pedi um, com licor de chocolate, chantilly e canela, uma delícia!

Na escolha da bebida, percebi meu medo do novo. Na prova do líquido, descobri o prazer de sair do lugar comum, deixar o vento levar. A sensação do trem em movimento! O trem é assim, devagar, mas flui. O café é assim, estimulante, energia. Eu sou assim, vou me reconstruindo na complexidade, contando com o apoio de quem se faz foguista...

Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
   

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Balões ao chão


Ela sopra as velinhas. Oito. O sorriso de dentes faltosos bane, por alguns minutos, o semblante triste do olhar. Vê-se, naquele momento, a dança da bailarina. O rodopio enche de música todo o amplo espaço do casarão assobradado.

Ela sopra as velinhas, sorri para a foto e pergunta por alguém que não veio. A ausência naquele momento até deixa de ser doída. É apenas constatação do imutável. Balões amarelos e vermelhos tomam conta do ambiente. E há também o bolo, enorme! doce!... que depois haveria de lambuzar-lhe o vestido, o rosto, os cachinhos do cabelo.

Palmas, fotos, abraços. Alguém, no calor do burburinho enrosca-se em um fio de balões. Uma tiara amarela e vermelha rouba o glacê do bolo. Umas mãos estabanadas surgem pensando resolver a situação. Arrastam-se outras fileiras de balões. O chão da sala recebe um tapete inesperado.

A menina pula da cadeira, bailarina de pés audaciosos a comprimir, em sequência, ora uma pétala vermelha, ora uma amarela. O estouro. Ah! que delícia a sensação dos oito anos espocando da ponta dos pés ao pé do ouvido. As mãos estabanadas querem contê-la. É tarde. E ele não vem mesmo. Os balões deveriam ser todos para ele – a fantasia prometida da volta ao mundo. É tarde.

E, se é possível um pedido, agora que as luzes do bolo de aniversário já estão apagadas e as luzes do céu da festa jazem murchas sobre o chão... Se é possível este pedido, ela quer tão somente uma fatia do bolo, ali do cantinho esquerdo, um pedacinho que, apesar do leve estrago, deixa entrever a mão estendida da princesa.
     

domingo, 23 de janeiro de 2011

Pintura


 http://coxixo.com.br/fotos-unhas-decoradas/fotos-unhas-decoradas-11/ 

É sábado e fui ao salão de beleza. É sábado e pintei as unhas. Unhas decoradas que se fizeram chamativas demais para alguém que, como eu, se acostumara à introversão. É sábado e pensei em, mais à noite, sair. O telefone tocou. Sua voz abatida, porém, conteve em mim qualquer ímpeto para a felicidade. Descobri, sem nenhum entusiasmo (que, para isso, pupila alguma se dilata ou se ilumina), a tristeza da distância na hora do sol poente.

É possível retroceder? E eu poderia reiniciar minha escrita. É sábado e fui ao salão de beleza. É sábado e pintei as unhas. Unhas decoradas que se fizeram chamativas demais para alguém que... Enfim, é sábado e pensei em sair mais à noite. O telefone tocou, como a adivinhar minha intenção. O convite. Não um convite qualquer, mas aquele pelo qual eu ansiava.

O telefone realmente tocou. Foi, no entanto, só mais um engano. Como acontecem enganos nas tardes de sábado! Eu mesma enganei-me ao concordar com a sugestão da manicure para esmaltar as unhas daquela forma. Não era meu estilo; eu sabia. Todavia, lembrando-me de um texto que lera recentemente sugerindo pequenas mudanças no cotidiano, avidamente aceitei: sim! Depois, tudo pareceria sem propósito. E eu nem queria atender ao telefone...

Sábado. E, embora eu tivesse pintando as unhas de maneira ousada, o telefone não tocava... Ainda que eu vigiasse o aparelho ou sutilmente disfarçasse indo fazer qualquer coisa na cozinha, nem que fosse abrir a geladeira pela décima primeira vez em menos de um quarto de hora. Ainda que eu me distraísse olhando para as pontas enfeitadas dos dedos e pensando que vestido combinaria mais. Ainda que eu devorasse por dentro toda a ansiedade e colocasse no rosto o sorriso exultante daquela manicure que olhava minhas unhas tal qual Michelangelo a sua Capela Sistina. Ainda...

Rabisco todos os minutos desta tarde e todas as linhas anteriores. Reiniciarei minha escrita. É sábado. O telefone tocou. Contendo qualquer outro ímpeto, avidamente aceitei: sim! Muito mais que exultante, coloquei no rosto o sorriso de quem nem precisa mais sair à noite. Não é mesmo o estilo de alguém que, como eu, se acostumara à introversão. Abri a porta. É sábado. Mas não pintei as unhas.
   

domingo, 16 de janeiro de 2011

Reencontro

   
Não, não é uma rua. Não há calçada nem meio-fio. Mas como é bom desfilar por ali sem pressa, saboreando o friozinho da manhã com cheiro de café recém-coado. Caminho devagar, em parte porque, teimosa - e vaidosa, vá lá -, neguei a meus pés um confortável par de tênis, em parte porque, sistemática e perfeccionista, espero nesses poucos passos alcançar o equilíbrio entre memória e coração.

Sei bem que o melhor mesmo é chegar lá no fim e atravessar o portãozinho de ferro que me devolve a infância em jabuticabeiras floridas. O aroma, aos poucos, modifica-se. Torna-se mais adocicado. O chão também já é outro. Os saltos parecem afundar na falta de rigidez do manto de folhas sobre a terra macia. É, no entanto, uma sensação de insegurança gostosa: o corpo em estado de alerta para evitar uma possível queda, mas a alma rindo alto com a imagem do tombo.

Venho movida pela vontade do resgate de um pedaço de mim que esqueci ali. Deixo, ao passar pelo portão, os longos anos que separam a altiva mulher da tenra criança. Reencontro. O céu de Minas inteiro derrama no ar essa palavra, por entre as frestas das montanhas, no rumorejar da vegetação oscilante, até nos descascados das paredes assobradadas.

Um sorrisinho atrás de uma das árvores se delineia para mim. Logo depois uma pequena corrida e um forte abraço que me deixa a blusa melecada de manteiga pura de leite. Meus sapatos, cadê? escondidos no canteiro de margaridas. Os pés descalços fazem festa por entre a vegetação. Damo-nos as mãos e ensaiamos uma ciranda.

Entre um giro e outro, os corpos desdobrados fundem-se novamente. Quem sou agora, refeita, renascida? Os pequenos milagres nos pequenos prazeres nos pequenos instantes nos pequenos espaços. Tudo tão enorme! Mas tão simples e insólito quanto este novo desejo: quero café com jabuticabas.


 Tiradentes - MG (Acervo pessoal)