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domingo, 1 de agosto de 2010

ao amargo do pé impotente...

     
Nascera sob o signo de câncer. Não que levasse a sério o que diz a astrologia. Mas aquele signo... Quanto de significação pode ocultar uma face da palavra...

Aquele caranguejo parecia não sair de seu pé. Pior: seu pé já era um caranguejo, carcomido pela ferida, não se deslocava mais. Fincara ali. Ali fizera seu esconderijo. Ali dilacerava seu corpo, surdamente espalhando-se, já atingia a medula. O pé já não existia; existiria outra coisa?


Que imagem agora se deformaria ante os olhos estarrecidos do pequeno animal? Mais uma vez era necessário retroceder.
Pensou em Ana. Será que ela lhe reconhecia tamanha impotência?

O trem ameaçou parar. E se ela saltasse por ali mesmo, qualquer estação desconhecida. Cumprir a sina de caminhar de ré. Entretanto, o pé doente não lhe animava o gesto de levantar. Viu algumas pessoas descerem na pequena estação. Viu outras tantas preencherem os lugares que mal se esvaziavam. Só seu vazio permaneceu.


Em que Ana pensaria agora?


Tirou o pacote de biscoito da bolsa. Comeu alguns, sem sentir-lhes o sabor. Sua boca sabia somente ao amargo do pé impotente, do pé falseante. Definitivamente Ana não poderia ajudá-la. Como desistir, no entanto?


O pacote de biscoitos voltou silencioso ao embrulho amarfanhado, misturado aos apetrechos que a bolsa feminina abrigava. Se ao menos ela chorasse... poderia descobrir naquele labirinto de mão um lencinho branco. Quem sabe assim a delicadeza do bordado amenizasse o peso da carga. Os ombros suportam o mundo, os ombros suportam aquela bolsa, os ombros suportariam sua decisão de fugir? Continuemos...