Mostrando postagens com marcador gaveta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gaveta. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Os girassóis na gaveta

     
Apertou a toalha ainda mais ao corpo. Não estava frio. Mesmo assim os arrepios não passavam. Os chinelos recostados na entrada do banheiro. Notícias de morte vinham pela TV. Para que o aparelho ligado já tão cedo? A porta entreaberta deixava refletir no espelho a foto que ficara sobre o criado mudo, um tanto difusa pela luz do dia. A lembrança do sonho persistindo...

O odor úmido de sabonete fazia dissipar do ambiente a ausência de cheiro de amor. Já nem sabia mais por quanto tempo estava sozinha. Mas, caprichosamente, tirava a poeira dos móveis do quarto diariamente. Com a mesma frequência trocava a roupa de cama. Gostava de lençóis com estampas de flores. Era o perfume de suas noites. Ah, como ela se fazia pelo olfato!

Qualquer cor de roupa preta lhe serviria, entretanto o ânimo para se vestir estava perdido entre os girassóis na gaveta. A mesma gaveta em que outrora ela havia aninhado delicadezas, babados e abstrações. Preciosidades de uma época em que se vestia romântica como seus devaneios.

Levantou a mão para ajeitar uma mecha de cabelo. A toalha caiu ao chão. Em gesto rápido e decidido pegou-a e atirou ao banheiro. O olhar bateu em cheio no espelho. A foto... Fosse talvez o momento de jogar longe outros objetos também. Despir-se das lembranças...

Antes, porém, convinha desligar a televisão. Convinha guardar o livro que lera pela madrugada. Praticidade e organização sempre lhe foram palavras caras. Pela primeira vez prestou atenção nos sons que vinham da rua. Convinha vestir-se. Dirigiu-se à cômoda. Hora de reencontrar-se por entre os girassóis.

 Montagem de girassóis em foto de Alison Brady
(http://www.fotolog.com.br/nistrix/35123868)
    

sábado, 15 de maio de 2010

Rosas

    
"Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto, que para ela só resta a alegria de se ter dado."
(Clarice Lispector)
    

Não é época de rosas. Mas segredos são para qualquer época. Guardados, revelados... o perfume está ali. Parece estranho esse início de texto? Poético, piegas? Não me importa agora o adjetivo que lhe venha a ser atribuído. Estou nostálgica. Daí embriagar-me no perfume das rosas que se abrem, espalhando risonha e impiedosamente meus segredos para o mundo. O céu azul e limpo é vastidão e, às vezes, desamparo demais.

Vai lá um sorriso de criança, os cabelos dançando ao vento, os pés ligeiros por entre as pedras do jardim. As mãozinhas ávidas colhem todos os meus segredos, dão a eles o colo da proteção, o carinho dos afagos, a quentura do olhar. Estou nostálgica. Daí embriagar-me desse hálito e aceitar o ninho desses braços.

Qual a fonte de onde se originou tamanha sensação de nostalgia? Ela, a roseira, estampada numa foto que acabo de rever. Dirão, talvez, se está a rever fotos, é sinal de que a nostalgia já havia se instalado anteriormente. No entanto, juro, não! O álbum de fotos foi tirado da gaveta (pasmem) porque precisava localizar a foto de um bolo de festa (pasmem mais ainda!) feito por mim. Não tenho grandes dotes culinários, mas tenho uma receita de bolo fofíssimo, saborosíssimo, que faz sucesso na família. E tenho a delicadeza da simplicidade de transformar glacê, coco ralado e confeitos coloridos em decoração artística.

A foto do bolo não achei. Mas a roseira carregada estampava-se à minha frente. Flores tão vivas, oferecendo-se à admiração, implorando por admiração! Vem meu filho e pede “mãe, faz arroz doce?”. Vou. A foto me acompanha, depositada em local próximo ao fogão. Meu corpo é também rosa aberta, entregando-se ao espírito maternal. Tantas outras urgências! Qual delas, entretanto, compensará o lambuzado sorriso pueril que traduz a cumplicidade entre talher e queixo?

Não é época de rosas. Pelo menos dessas que florescem naturalmente nas roseiras, sem necessidade de grande atenção, crescendo a esmo. Escorreguei na arte culinária, caí no jardim, meus segredos voaram. Retornaram, porém, entrelaçados em um buquê de dedinhos, respingados de arroz doce, exalando histórias...

Quem, nesse momento, dá colo a quem? Daí embriagar-me nesse rio que escorre pelos vãos dos dedos. Meus olhos se liquefazem à imagem da roseira em foto, devidamente abrigada entre as páginas do álbum. Guardo os segredos na gaveta. Entrego-me à nostalgia.




Um jardim qualquer de uma casa não tão qualquer em uma cidadezinha qualquer (Acervo pessoal)