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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Dar-te-ei ainda, depois de tudo, um copo de cólera*


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Naquele dia, ela desprezou a sobremesa. Não queria nada doce. Às vezes é fácil abdicar das pequenas felicidades para manter o azedume necessário que o cotidiano pede.

Naquele dia, ela desprezou o sorriso. Não havia nada que merecesse uma boca de dentes brancos. Nem mesmo se houvesse consulta marcada no dentista ou uma reviravolta que a tornasse garota-propaganda de creme dental.

Naquela dia, ela desprezou o gingado do corpo em resposta a qualquer acorde dançante. Na sisudez em que se colocara, dispensou mesmo o som automotivo, o rádio e a televisão. Até o celular ficara condenado à falta de toque, no silencioso.

Naquele dia, ela desprezou os fonemas adocicados de seu sotaque e até os fonemas ásperos do balconista sempre insatisfeito da loja de secos e molhados em que costumava comprar uma garrafa de vinho para as noites sepulcrais do marido.

Naquele dia, ela desprezou os diálogos ora afáveis ora ardentes dos romances com que se distraía no fim da tarde, terminados o serviço e o banho diários. Que os livros alimentassem de ilusão e personagens as paredes escuras e insossas da estante…

Naquele dia... ele só desprezou a falta de alma estampada no rosto da mulher. Comeu, bebeu, gargalhou, lambuzou-se dela. Não se deu conta de que dançava na poça de seu próprio sangue até ler o título impresso na capa do livro cujas folhas esvoaçavam próximas à taça de vinho.


(* Homenagem a Raduan Nassar, autor de, entre outros livros, "Um copo de cólera" e ganhador do Prêmio Camões 2016)

quinta-feira, 11 de junho de 2015

dos amores que (não) se fazem eternos




Foi assim que tudo começou. No início pareceu-me que seria simples. Eu não consegui, de imediato, visualizar a estrondosa dimensão daquele ato. Não consegui por uma única razão: não pensei. Apenas acreditei. E me atirei inteira – corpo, alma, coração! Eu sentia a força dos batimentos cardíacos, das contrações musculares, e, ao mesmo tempo, certa leveza, como se folha eu fosse a flanar sob o impulso da brisa.

    Eu tinha consciência somente do seu ritmo, consonante ao meu. Eu fantasiei que o relógio marcaria 18 horas para todo o sempre. Fantasiei também que só haveria dor de exaustão, quando o corpo não mais acompanhasse o frenesi da alma e insistisse na vontade do sono. Para essa dor, eu me aninharia em seu peito e você acobertaria seu rosto em meus cabelos.

    Ah! Mas a simplicidade é só desejo de amantes! De repente a fome se instalou – não esta: a do desejo – mas a fome mecânica de estômagos. Fome de arroz e feijão, que gera panelas sobre o fogão e talheres sujos. De repente não éramos mais dois seres envolvidos na magia do amor. Havia uma casa, havia objetos, havia contas a pagar...

    Nós nos perdemos. Não tecemos o fio do “felizes para sempre” para além do beijo e do amor. Não soubemos conciliar o funcionamento do leito com o funcionamento do mundo. A dor foi lágrima na minha e na sua face. Carregamos, com o poeta, o lema dos amores que não se fazem eternos, mas infinitos enquanto duram. Decidimos colecionar lembranças. 

    Foi assim que continuamos atentos um ao outro. Contentes nas lembranças, nas reminiscências, na busca de notícias, mensagens e breves encontros. Percebemos, neste novo trajeto, que nunca mais seríamos sós. Seria sempre você em mim e eu em você.

    Não fantasiei mais nada. Os ponteiros do relógio caminhavam para nós dois.
   
    

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Nessa parede surdemuda

 
Eu não quero cantar
pra ninguém a canção
que eu fiz pra você
que eu guardei pra você*




        Há quem tenha uma canção que faz lembrar. Eu não canto. Desconheço juras de amor. Não carrego eternidades. Há quem cante no chuveiro. Eu, porém...

       Transformo um azulejo em lousa. Escrevo seu nome. Escrevo meu nome. Escrevo qualquer coisa que me vem ao pensamento e instantaneamente escorre para a ponta dos dedos.

        Confiro o desenho a água, para ter certeza da forma redonda e perfeita da grafia. Nessa parede surdemuda, só faço letra cursiva. Nada que sugira imprensa, que é para manter segredo do registro.

       O banheiro inteiro mergulhado no vapor d’água. Eu não tenho uma escrita de romance, mas fica ali a fantasia, o que, de algum modo, é história. Inacabada. Nem começada. Não há uma canção.

      Eu sei que você tece melodias. Imagino seus dedos no violão. É mais real que a tinta incolor com que preencho os espaços da minha lousazulejo. Porque as notas que você dedilha alcançam o vento que caminha da sua janela para outros horizontes.

     Eu escuto um dó, um sol perdido, e as minhas luas derretem-se em lágrimas. Da mesma matéria com que fabrico letras durante meu banho. Não é para mim que você canta. Eu fico apenas com seu nome, lançado repetidas vezes nessa parede que não vai para outros horizontes.

       Desligo o chuveiro. Enxugo meu corpo. Não há mais letras por hoje, todas diluídas, dissolvidas no que fica de molhado no ambiente. Eu saio, já seca, de você, de meus devaneios...

       Mas há um som que vem pela janela e me deixa úmida. Há em mim dedos inquietos que tentam coletar a canção que eu não fiz para você, a canção que você não fez para mim...
    
    
* Fragmento de letra da música "Nada pra mim", de Ana Carolina.
    
     

domingo, 21 de setembro de 2014

Asa sem par


Adaptação de imagem disponível neste link.



          Estou enterrando uma pessoa especial. Sim, eu tinha uma, apesar de detestar o termo. O que é especial tende a ficar guardado. Sempre quis coisas e pessoas comuns, para o dia a dia, para toda hora, sem esperar por ocasião. Mesmo assim, cultivei uma especialidade. Rara. Em tudo. Na beleza, no sentimento, na possibilidade de estar junto.

Não havia como ser diferente. Até o resplendor mais viçoso se perde, quando abafado. Com a distância constante, o sopro vital foi se extinguindo.

Estou enterrando essa pessoa especial. De modo lento, doloroso, nos intervalos de sol e chuva. Esmero-me em cumprir todos os ritos de que o luto necessita. Vão as velas do velório. Vão as velas dos olhos. Tudo que é luz e brilho aos poucos submerge nas águas da despedida.

Desvencilhar-se é processo muitas vezes imposto. Já me tiraram tanto, induzindo-me a crer que é preciso que o antigo se vá. O caderno de poesias da infância... As amigas da adolescência... O imponente estofado de estilo clássico... Os discos de vinil... Os sonhos de amor... Aceitei. Aceito as regras. Porém, sofro. O peito dilacera-se sem testemunhas. Pro diabo essa coisa de desapego, viver com o mínimo, trocar de opinião, mudar de ares! Acaso conhece alguém as minhas intensidades?

Entretanto, é imperioso esse desfazer de agora. Dou a volta ao mundo em busca de detalhes sobre as solenidades inventadas para o momento da morte. É para chorar, beber, cobrir o corpo de preto, aprisionar-se, atirar-se na pira fúnebre?

É para fugir de mim mesma. É para enfrentar-me a mim mesma! Virar o jogo, revirar as gavetas, recriar a coreografia. 

Tem que ser assim. Devagar. Tomar a dimensão da cova de longe. Achegar-me. Deitar o olhar para dentro do buraco. Esboçar um gesto técnico, como a verificar a métrica do espaço. Caberá! Debruço-me a lançar terra, punhado por punhado, apertando-a entre os dedos, entre a tristeza, entre a desilusão, para que sumam das mãos todas as linhas, para que a história se perca no nevoado da poeira.

Tu virarás pó. Talvez eu venha a me sentir incomparavelmente só... Talvez o balé se produza mais belo, mais consonante, repaginado em asa sem par.

Já a última mão de terra. Depois é dizer fim. A derradeira, cujo poder é transformar-te para sempre em pó... Mas, justo essa, o braço, exausto de fantasiar tantas danças, não consegue completar.
   
   


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

E o vento não levou...

 


Há muito ela perdera o hábito de telejornais. No jornal impresso que assinava, escolhia com cautela as seções para sua leitura. Interessavam-lhe, mais que as notícias, as resenhas de romances e de livros de filosofia e sociologia. Igualmente, faziam parte do seleto rol as tirinhas e as propagandas de lançamentos imobiliários. Nas primeiras, buscava subterfúgio para as agruras da rotina. Nas últimas, entrevia a possibilidade de uma casa que lhe prometesse bem mais que abrigo. Em tempo algum se debruçava sobre notas sangrentas e sensacionalistas. O horror que lhe causavam era já antídoto que a mantinha longe.

Por aqueles dias, no entanto, os jornais andavam intactos sobre a mesa de apoio da sala. Indiferente a eles, seu desejo se instalara em outro plano. Não granjeava palavras elaboradas, nem ideias avançadas, nem alimento para curtas risadas, muito menos esconderijos aconchegantes...

Seu desejo ganhara corpo, companhia para horas de êxtase que a faziam descobrir as pernas e se descobrir. Notícias e reportagens para quê, se aqueles momentos poderiam lhe valer toda uma existência?

Preparava-se com esmero para a chegada daquele homem: a veleidade espantava a prudência, a ansiedade derramava blush em suas faces. Era preciso fazer vento para dissipar o calor que a consumia. Ela não titubeava. Ligava com antecedência o ventilador de teto.

Naquele momento, portanto, havia, na sala, estendida sobre o sofá, a languidez de um casal que acabara de fazer amor e havia também a agitação de um ventilador de teto ligado. Coube a ele o gesto harmônico de unir repouso e movimento. Foi assim que a ergueu nos braços e a fez rodopiar.

Cuidado! O ventilador! A cena delineou-se em ambas as mentes. Ele estancou o movimento. Por breves segundos, fez cara de susto, para, em seguida, despencar em riso solto. Acusado de matar a amante! Já pensou? Decididamente, ele não queria ser manchete de jornal. Até porque ela não poderia lê-la...

Colocou-a no sofá sem perceber que ela vira sua morte nos olhos dele e que ela fora subitamente tomada pela vontade de ser cega para não ver o olhar que evocava certo presságio. Um dia ele a mataria, sim, de modo muito mais cruel. Iria matá-la dentro dele, no coração, na mente, nas lembranças. Ela sofreria sem que ninguém jamais soubesse. Essa tragédia não seria noticiada em jornal nenhum.

Contraditoriamente, também se deixou levar pelo riso. Talvez até preferisse as hélices do ventilador, mas ela o pouparia do escândalo. Sabia que nunca iria querer nem o mais mínimo dos males para ele.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

De conto em conto, todas as contas



“A vida é um colar. (...)
São sempre tantas as missangas.”
(Mia Couto)



“E viveram felizes para sempre”. Começa-se a felicidade; acaba-se a história. É assim em quase todos os contos de fadas. Não quero essa felicidade; presumo que você também não a quer. Ansiamos por histórias, várias, inesquecíveis, entrelaçando-se, criando um livro infindo que só a morte põe término. Põe?

Foi naquele tempo em que Deus ainda criava. O mundo não era uma capa de revista. Eu já conhecia lágrima e você, coberto de razão áurea, adivinhava o pentagrama pitagórico. Eu não sabia nada do que era possível. Até acontecer. E aconteceu em uma noite de lua cheia. Eu vi suas mãos. Eu vi seus olhos. Os ombros não, que era para manter distância, descuidar-se do amparo. A insegurança deveria ser presença constante. Bastou um olhar, bastou um beijo: estava perdido o paraíso. A partir daquele instante a lua, feito moldura para o rosto, passou a brilhar ainda mais. Prata! daquela de cobiça, que pede mais, pede ouro, diamante, uma profusão de pérolas a enredar-se.

Vai daí, puxa-se um fio intermediário e estávamos nós, de repente, no salão de baile do castelo. Eu olhei para meu vestido azul. Parecia que aquele tom não combinava com a cor de seus olhos. Havia um espectro de espadas a esconder seu sonho de esgrimista. O desespero disfarçava-se em sorrisos discretos. Caminhamos até a balaustrada. Não havia mais céu para o ar necessário. Foi por não saber dizer que eu disse tanto. Você, confuso, ofereceu-me caramelos. A voz até ficou retida, mas... a boca cheirando a mel! O que mais contar? Bastou um beijo. A boca tão açúcar, branca, de perfiladas contas!

Como lascas agudas, as raízes da trama perfuraram o tempo e, diligentemente, avançaram para a terra nova. Era já outro continente. Suas mãos ávidas de outros desejos. O bolso do sobretudo de casimira abrigava uma bússola. Embora pendessem livros aos cachos na biblioteca, a você só interessavam os atlas. Havia mais o que descobrir? Cores novas e novas palavras. Um lencinho branco ficou no porto. O beijo esbarrou na promessa. Bastou a saudade. No corpo, o vestido preto fazia segredo da esperança. Eu descobri que nunca mais também podia ser para sempre. No entanto, eis a urdidura do tecido por entre os galões...

Atados pela narrativa, desconhecemos a interrupção. Há um jardim que contorna os limites do arranha-céu e estende-se até as ruínas do império fenício. A Babilônia é uma figura na parede (oh!) e não há quarto que sirva de baluarte ao nosso amor. Há, porém, um beijo, que, de há tanto parado no ar, gerou urgências. Ninguém precisa de magia. Basta essa linha invisível, condutora de ventos auspiciosos, a espantar as sombras e os silêncios da existência...

Que a vida é um colar!
    

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Aqueles minutos...




Ela estava parada ante a caixinha de brincos, indecisa. Não era de se maquiar. Deixava nua a pele do rosto. Bastavam-lhe rímel e batom. Fazia questão, porém, da escolha certa dos brincos. A festa já devia estar começando. Saber-se atrasada aumentava sua hesitação. Era nítido o nervosismo em suas mãos a mexer no porta-joias.

Ele, no entanto, não se importava, de fato, com o relógio. Era prazeroso vê-la se arrumando. Ela atendia o interfone, ele entrava e chegava à beira do quarto, encostava-se ao batente da porta, no aguardo. Era sempre assim. Nada dizia. Apenas observava.

Lá fora, o barulho dos carros aumentava. Por um breve instante, os olhos dela correram em direção à janela. Foi como uma aragem. Eles pousaram exatamente no acessório adequado. As mãos tornaram-se, de pronto, ágeis.

Habituara-se ao estilo da amada. Ela conseguia reunir simplicidade e sofisticação, presteza e languidez. Ele só via a beleza cativante de seu sorriso. Os cabelos estavam sempre soltos, em convite para o deslizar dos dedos. A tarde em que ele a conhecera não era de vento. Fosse, e a paixão teria sido arrebatadora. Melhor assim. Houve tempo para a lapidação da querência. Ela era do tipo que exigia vagar e ele comprazia-se com a detença.

O olhar dele não descansava. Acompanhava cada pequeno movimento. Ela, preocupada. Quantos minutos já de espera?

De repente, ela lhe sorriu com um pedido mudo de desculpas no rosto. Estava pronta. Ele nada lhe diria sobre não se importar com o avançado da hora. Seria quebrar o encanto.

   
   

terça-feira, 21 de maio de 2013

Conjugações

 




O meu gosto é pela segunda pessoa.

Não sei por que

insistes na terceira.

E, na tua angústia toda

de homem que do amor se desfez

por medo da liberdade,

assistes assim a mim

em outros braços.

Porque eu, sábia na arte dos simulacros,

faço tu de qualquer outro ele.

   
   

domingo, 24 de março de 2013

pela luz dos olhos teus *

 
Imagem da internet

Verificou uma última vez se havia novas mensagens em sua caixa de correio eletrônico. Em seguida, pegou sobre a mesa os óculos escuros. Sairia para o almoço em alguns minutos. Não sabia se tinha fome. Via-se sem vontade de comer. O relógio lhe dava uma hora diferente da de seu corpo. A claridade externa atingiu seu rosto como uma lufada de ar gelado. Sentiu paralisar-lhe o nervo óptico. Ajustou rapidamente os óculos atrás das orelhas. De súbito, trazida pela claridade, veio-lhe a imagem dela. O rosto aparentemente sereno, nem alegre nem triste, e aqueles olhos cujo segredo ele não ousava decifrar.

Fosse ele dado à lírica, buscaria dizer qualquer coisa que se assemelhasse à contemplação machadiana dos olhos de ressaca de Capitu. Tivesse ele algo de freudiano e sua mente seria um pulular de interrogações tão complexas quanto a força daquelas pupilas. Ele, entretanto, limitava-se a tomar distância, sem ânimo para enfrentar o desconhecido.

Há que se observar, porém, que o desconhecido ata a vontade própria, feito profecia de oráculo. Quanto mais ele fugia da esfinge, quanto mais calava o espírito de Tirésias, tanto mais o olhar dela se materializava. A imagem tornava seu andar mais lento. Parecia-lhe que se aproximar do carro era fazê-la surgir sentada no veículo – aparição milagrosa – e ela deixaria propositalmente a mão esquerda sobre a perna, solicitando, em gesto mudo, que ele a segurasse. O toque das mãos era sempre tão bom, misto de conforto e desejo! O desejo que acabava por prender seus olhos aos dela.

Ah! Se jogar os óculos escuros ao chão e pisoteá-los esmagasse aquela visão, ele o faria, sem pensar na dor que o excesso de sol lhe causava. A dor da atitude que ele tomara dias antes lhe impingia sofrimento muito mais atroz. Como tirá-la da sua vida daquela forma, sem nenhuma explicação e, ainda pior, sem dizer a ela que estava a afastá-la? Ele continuava a mandar-lhe mensagens e a fingir que tudo corria bem. Ele se enxergava covarde, desonesto, cafajeste. Todos os pecados do mundo eram pedras que sua consciência lhe atirava, independentemente de qualquer fala bíblica de perdão.

Entrou finalmente no carro. A fome não chegara. Começou a dirigir. A cabeça em desalinho... Em movimento involuntário, as rodas do automóvel tomavam direção diferente. Ele se viu, minutos depois, na pequena rua de terra, do alto do morro, repleta de buracos que impediam sua passagem. Não havia outro jeito a não ser parar o carro. Desceu. Olhou para o barranco que o separava do resto da cidade. As casas todas a sua frente eram só janelas, todas elas escuras, cegas. Puxavam-no para baixo. Ondas, os olhos dela, a arrastar-lhe, obrigando-o ao desvendamento do segredo. Como negar sua impotência? Como fugir do destino? Num ímpeto, atirou longe os óculos escuros.

* Originalmente título de música de Tom Jobim.
   

quinta-feira, 7 de março de 2013

Quando a páscoa não vem...

   


Era março. Sua necessidade de oração crescia, enorme. A angústia que a consumia buscou pretenso alívio nas falas decoradas do ritual religioso. Há muito as quaresmeiras floridas eram retrato perdido de seu passado. Agora, o roxo das vestes sacerdotais pintava os já desbotados quadros da via sacra em sua lembrança. 

Era ela quem caía mais uma vez, sem ninguém que a auxiliasse, que enxugasse seu rosto, que acompanhasse seu trajeto, que amenizasse sua dor. Ela era sozinha na multidão de fiéis. Alguém lavava as mãos? Talvez pior. Alguém lhe sorria. Aproximava-se dela ao fim da cerimônia. O rosto, até sereno, supunha que o cumprimento verbal apagasse todas as faltas.

Aquele encontro, em certo momento, seria mesmo inevitável. Ela voltou a sentar-se no banco de madeira escura. Queria falar-lhe sim, mas do jeito honesto que aprendera na infância: olhando-o diretamente nos olhos. Entretanto, não conseguia encará-lo. Disfarçava o foco, concentrando-se na distorção luminosa dos painéis vitrificados.

Havia nela uma grande vergonha. Sabia-se usada, enganada, roubada, traída. De seus lábios, no entanto, só um pedido: que ele a deixasse sair daquela situação com um mínimo de dignidade. O pouco proferido era quase o latim das inscrições monumentais, como se de fato fosse sua língua materna. Dolor supremus.


Ele não a confortou. O silêncio era lança a ferir-lhe o peito. As mãos dele, abaixadas, afastadas, inertes, eram os cravos da crucificação. Não, não haveria vestes resplandecentes. Apenas o canto longínquo de um galo.
   


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A agulha

 



Bordava roupas de cama, panos de prato, toalhas de mesa. Eram linhas e agulhas que perpassavam as tramas do caprichado enxoval. Não era, entretanto, pensando em seus núbios sonhos de moça que bordava. O tecido marcado, por si só, era sua satisfação. Agradava-lhe vê-lo não mais branco, intacto. Era como o prazer da folha preenchida a tinta. Para o leitor, tantas palavras! Para o analfabeto, o espanto impingido pelo enigma.

Colecionava os elogios recebidos. Às vezes, cuspia um deles sobre agulha ingrata que ousasse lhe ferir. O sangue estancava em segundos!

Aconteceu, porém, um dia, de perder o domínio sobre a agulha. Enamorara-se. Os olhos foram tomados de devaneios. O corpo e o coração, crivados de êxtase... Passou a bordar sonhos pela madrugada, sorvetes à tarde e audácias ao cair da noite.  Tão mais o tecido se preenchia, mais era a bem-aventurança! Acordava desejando as marcas impressas pelos ventos da fortuna.

Manhã veio, no entanto, sem nenhuma alvíssara. Na mão da mãe via-se o requinte do papel opalino que ostentava luxuoso monograma. Na mão firme da mãe, diferente da sua, que subitamente ignorava qualquer rigidez... Com que então, o amor que julgara só seu estava predestinado a outros lençóis, de bordadeira nem tão afamada?

De ímpeto, dirigiu-se ao quarto, apossou-se dos apetrechos de costura. Ali, a agulha fez-se arma. Deixou que o sangue brotado escorresse. A marca no tecido foi outra.  Mesmo assim, entranhada nos fios.

Linhos, cambraias, cânhamos... Aos poucos, o novo bordado lançava mágoas escarlates sobre os cortes. Os tecidos vivificavam-se. Havia quem nada entendesse. Fofocas e condenações substituíram os elogios. Ela mais e mais caía de amores pelo novo enxoval.