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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Primavera


  
Aquela era a época dos 15 anos. Eu ainda parecia criança. A escola, pela manhã; à tarde, os serviços caseiros; os sonhos, à noite. O mundo resumia-se à finitude dos quilômetros das poucas terras que eu já percorrera. Qualquer outro chão compunha a abstração geográfica da fantasia que chegava pelos livros e pela televisão.

Foi quando me interessei por árvores. Não aquele interesse da infância. Eu tinha muito medo de altura. Não era de arriscar-me em pequenas levadices inconsequentes.

O que vi nas árvores não foi possibilidade de movimento – subir, descer – usando pés e mãos. A atração se fez feito pássaro. As asas dos olhos em direção à copa florida. Espaços e aromas novos conduziam à exploração de cores e texturas novas. Eram os sentidos descortinando um mundo além do corpo.

A camisa branca do colégio vestiu-se de laivos de ipê. Os rastros da caminhada geravam arco-íris cortados de atalhos. Os pés, lépidos, pela estrada, não se queriam raiz. O pensamento, flor, flanando entre folhas verdes e nesgas azuis.

A primavera chegava. E – novidade! – trazia beija-flores.

   
  

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Esse meu gosto

     

Setembro acaba e se vão com ele os coloridos dos ipês... à ausência de música abro a torneira da pia do banheiro... bem sei... amanheci nostálgica... Não se iluda, porém: posso ter escrito isso apenas para exercitar minha paixão pelo uso das reticências. Tenho andado em uma fase de compor poemas, uma lírica entorpecente que me tira a exatidão necessária à crônica. No entanto, há em mim um desejo grande de ser exata. Não me basta o azul. Quero o azul petróleo intenso. É esse meu gosto pelo detalhe que me faz perceber que você vive, apesar do meu silêncio.

Bem sei... qualquer nostalgia que hoje me alimente a alma vai ter gosto de café recém-coado e de poesia de João Cabral de Melo Neto se encorpando em tela luz balão. Não se iluda, porém: posso ter escrito isso apenas para falar do que já li. Porque quero a educação pela pedra. Na ponta do cinzel, lições de estruturalismo e geometria. Estou cansada de tudo que é surreal e metafórico. No entanto, não gosto de precisar; gosto de querer, aliás, de quereres...os calmos e os urgentes. É esse meu gosto pelo querer que me faz perceber que você vive, apesar da minha esquiva.

Porque quero, mas me escondo. Só apareço na necessidade, no tão sem tempo do meu cotidiano, nas suas horas não contabilizadas. Sucessivas e exaustivas aulas de economia: equidade, qualidade, sustentabilidade... e um “eu” retraído... Não se iluda, porém: adoro desperdiçar – com fartura – meus sorrisos e minhas lágrimas. Sei ser amante, mesmo que não amada. E, quando amada, sei ser abusada. Não gosto do pouco; não me basta o devagar. É esse meu gosto pelo excesso que me faz perceber que você vive, apesar da minha negação.

Se qualquer coisa me salvasse e esse dia sem anúncio nenhum fosse só uma comédia hollywoodiana e na ponta dos dedos surgisse apenas a palavra nua e crua e você pudesse se iludir e eu pudesse ser sua nesse exato instante e a primavera me devolvesse floridos os sonhos da infância... meu gosto seria um só: perceber a vida que há em mim porque há você.


sexta-feira, 26 de março de 2010

Folhas de Plátano


        
Descobri, de repente, folhas de plátano espalhadas pelo chão. Olhei no calendário e, apesar do excessivo calor, constatei que já era outono. O desconforto que eu atribuía à sensação térmica, num piscar de olhos, cobrou-me a razão. Descobri, de repente, que a juventude acabou.

Moda vai, moda vem, e não se percebe a passagem do tempo. Até que um dia... dá-se conta de que já não se é o caçula da família, o aluno mais novo da sala de aula, o mascote da turma, o recém-contratado da empresa. E quem vem chegando praticamente sempre tem idade inferior a quem já está.

Como foi que descobri pálido o viço da juventude? Não consigo lembrar em que noite dormi criança e acordei adulta, embora me lembre bem do sabor de amadurecendo dos frutos, inclusive dos proibidos.

Entre as minhas andanças literárias, li uma vez – uma vez é força de expressão (ou será fraqueza?); li várias, tantas vezes, que é assim que costumo fazer quando algo me comove. Bem, li. Em Clarice Lispector. “Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente – como em dores de parto – e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”

Quando li isso, já havia experimentado as dores do parto. Não tinha, entretanto, experimentado essa noção de morte. Eu virava as páginas, sem me dar conta de que os acontecimentos narrados em algumas delas seriam irrecuperáveis e, então, eram já substância inerte. Ao ver a planta brotando, regozija-se com o milagre do verde nascedouro; não há mais preocupação com a semente.

Muito do que li, reli depois das dores do parto. Não havia, porém, percebido a dimensão do heroísmo. Esse de dar a vida num crescente silêncio. Ah, quanto me calo até no que digo! Ah, quanto se calam os meus personagens! E quantos terremotos são abortados no meu calar! O tempo é soberano, poder-se-ia dizer. Tenho aprendido com ele a gostar até dos maus momentos. Ah, as dores! Vou me deixando ferir e fico depois recosendo as cicatrizes. Ora, faço questão de ostentar as marcas que nenhuma maquiagem disfarça, ora isolo-me na vã tentativa de escondê-las. Dureza, silêncio e heroísmo!
     
Domingo a domingo, nesse eterno outono, vão caindo as folhas secas. Entretanto, recuso-me a deixar que a menina seja trocada por uma adulta insensível. Atiro bravamente minhas luvas contra a amargura, saboreando de antemão a vitória. E, acaso, se a natureza me presenteia com um arco-íris em meio à estrada, não considero o risco do ridículo: paro e deixo que as cores me contagiem. Quem sabe eu não brinco com o tempo e volto a ser criança na próxima primavera!