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domingo, 13 de outubro de 2013

janelas de ver e voar


     Tinha eu cinco anos e, pela primeira vez, devorava o mundo por uma janela. Estávamos em férias. Era a casa de meu avô paterno, com suas janelas de madeira pintadas de azul forte. Era a cidade da família paterna. Eu ainda não tinha a noção de pertença ao lugar, não percebia o significado de ser ali minha terra natal, eu não sabia que o ferro (daquela estrada por onde o trem passava repetidamente), tal qual a Drummond, também marcaria minha alma. Era a primeira vez que a paisagem adiante não se fazia rua e casas. Havia um estender de chão para além de onde a vista alcançava, um imenso verde que muito à frente se findava no azul celeste. Aparecia, às vezes, um pequeno avião, enchendo, com seu sobrevoar, meus olhos alados de criança. Décadas mais tarde, descobri, em um livro que trazia a história da região, que o monomotor pertencia a um grande empresário, dono de várias fábricas de laticínios instaladas naquelas paragens. O gostoso, naqueles momentos, àquela idade, era colocar os cotovelos no peitoril da janela e respirar o paraíso que eu não via morando em bairro pobre da capital.

     Aos quinze, não foram férias. Foi mudança. Por um período, a janela que para mim se descortinou era a da casa da avó materna. Situação bem diferente. Era o quarto em que dormi por alguns meses. Quarto de fundos. Casa antiga. Janela de madeira de duas folhas que se abriam para fora e se fechavam por trinco. Aberta, a janela pintada de cinza dava a ver o quintal. Lá fora só o tanque e o muro. Mas eu não estava a me importar com o mundo à frente. O sentido do voo era inverso, diverso. Eu queria ver o mundo ao lado, na pessoa com quem eu mais gostava de conversar. Eu queria ver o mundo de dentro, nas descobertas que a adolescência impunha. Foi com os cotovelos no peitoril daquela janela que o primo, beija não beija, não me beijou.

     Outras mudanças vieram. Não houve mais tempo para se perder à beira de janelas. Entretanto, despontara dentro de mim uma necessidade constante de céu azul. Passei a ansiá-las amplas, transparentes, de modo que nem se precisasse aproximar tanto para vê-lo. Bastava um rápido correr de olhos para o aquietamento das inseguranças de minha alma. Nas tentativas de aquietar-me, o mundo vinha pela abertura dos panos de vidro. Os dias foram se acumulando num desfilar de situações novas e velhas: trabalho, família, amigos, problemas, soluções... Minas eram muitas e me conduziam em direções várias. Apesar do que ia pesando, eu fui me deixando levar, o pensamento e os sonhos voando... Em momentos de pouso, dei-me à minha terra, às gentes com quem criei laços, aos amores que vivi. Não sei se me dei ao Amor...

     Hoje, na casa em que moro, não há janelas em que eu possa me debruçar. Ora são grades; ora, a própria estreiteza do artefato. Se ali os vôos não são permitidos, há, porém, um terraço, para o qual, às vezes me refugio. É ele uma imensa janela com vistas para um imenso céu, que já não contemplo em seu azulejar, mas, à noite, quando há estrelas em profusão, quando há notícias de eclipse e, principalmente, quando há lua cheia. A certeza de que há, para além de onde a vista alcança, todo um universo que me faz grande e pequena em um só tempo. A mesma sensação de quando me vejo frente ao mar das praias oceânicas. “Mundo mundo, vasto mundo”, roubo o verso de Drummond, despindo-me nesses instantes dos oitenta por cento de ferro que se apoderaram da minha alma. No alto, de encher os olhos, aquele todo estrelejo (roubo a Mia Couto essa última palavra). Divago na literatura que me vai dançando da mente ao corpo. É por essa ininterrupta janela que pressinto o Amor e me vejo Penélope a desmanchar todo o trabalho do dia enquanto creio vivo Odisseu, a caminho do reencontro.

   

domingo, 29 de setembro de 2013

As lições de minha avó


  Foto: acervo pessoal


     Eu tinha vontade de ter ouvido minha avó contar a história da vida dela. Queria ter conhecido cada detalhe do que as tias – só algumas – contam, por alto e sem muito conhecimento, de que a vó fugiu de casa para se casar com o vô, militar, mulato, pobre, sem morada fixa, mudando de cidade a cada novo destacamento. Palmilharam ele, a avó, os filhos e toda a mobília por várias estradas do sul destas Minas. O cortejo de filhos ia aumentando, uns morreram, ficaram por aí enterrados os anjinhos, túmulos talvez jamais visitados.

Minha avó nunca abriu a boca para contar essas histórias aos netos nem para reclamar das circunstâncias. De suas dores, a gente só sabia – quem para isso tinha sensibilidade – pelas outras coisas que ela dizia. Eu ouvia, umas me doíam, até mesmo pela pouca compreensão característica da idade.

Foi, por exemplo, quando nasceu um novo priminho, seu neto provavelmente de número 28, numa época em que ainda não havia as previsões certeiras dos ultrassons. Eu lá pelos 15 anos. A notícia chegou por telefone. Ela, calma como sempre, após desligar o aparelho, fico muito feliz quando ganho mais um neto, mas fico mais feliz ainda ao saber que é menino, pois mulher, por melhor que lhe seja a vida, terá seus pedacinhos. Custei a dar sentido a esses pedacinhos.

De feita, ela na cama há mais de ano, a esperança de se livrar da sonda nasogástrica já se exaurindo, eu sentada ao seu lado. Fazia-o sempre que possível, apesar do trabalho e do estudo. Ela pedia que segurasse sua mão. Ficava longos minutos na mesma posição, olhando para o alto do guarda-roupa, onde havia algumas caixas. Depois falava alguma coisa, um comentário qualquer, está precisando tirar a poeira daquelas coisas ali no alto, nem deveriam estar ali. Ela pedia para mudar de lado, alegando cansaço, mas pega minha mão de novo. Então ela me disse você seria ótima enfermeira, minha neta, você tem muita paciência e serenidade. Na hora só pensei Deus me livre de ver sangue e dor. Custei a entender que ela, de fato, não falava de futuro profissional, mas elogiava minhas qualidades.

Dela, quando ainda tinha saúde, recebi, de um modo particular, bastante prático, de quem já sofreu privações intensas, algumas lições de economia. Havia o orgulho de descascar as batatas, tirando as cascas mais fininhas, muita gente desperdiça porque não consegue fazer assim. Até aprendi. Outras lições, no entanto, não segui. Já elas me seguem. Não consigo me desfazer de um saquinho de papel, desses que embrulham o pão, sem me lembrar de que ela os juntava para trocá-los no moinho de fubá: 100 saquinhos destes, dizia, ajeitando-os com as mãos, um a um, eles trocam por um quilo de fubá. E a gente subia a rua até o moinho e voltava um quarto de hora depois com o ingrediente para sua culinária mais apreciada: a broa de fubá da vovó. Hoje dobro todos os saquinhos do mesmo jeito que ela fazia, para, só depois, colocá-los junto aos materiais recicláveis que devidamente separo para a coleta seletiva. Dói-me muito ver os catadores passando e levando somente latinhas e garrafas pet – são mais lucrativas. As embalagens de papel ficam ali, não raro, espalhadas na calçada. Meu coração se espalha também...

Minha avó colecionava tijolos, que ela encontrava jogados na rua ou em restos de construção. Com eles construiu o muro da garagem de sua casa. Era uma das mulheres mais ativas que conheci. A festa de Natal ou de Ano Novo podia terminar às 2, 3 horas da manhã, às 5 ela já estava de pé. A hora de deitar não altera a hora de levantar, afirmava. É nisso que me fio quando preciso trabalhar até mais tarde ou quando velo a doença de um filho ou a morte de um tio. A energia vem, forçada pelas circunstâncias e inspirada na avozinha.

No dia em que a doença, que a consumiria durante oito anos, bateu em seu portão, ela estava justamente a pintá-lo, ela mesma, ignorando o mal estar que não a ignorou. Naquele dia, eu soube que nunca mais haveria a possibilidade de ouvir as histórias que me interessavam, mas comecei a ouvir a lição que viria repetidamente: Não importam os entreveros da vida. Há pessoas que nascem para ser cuidadas; outras, para ser cuidadoras.
   

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Aqueles minutos...




Ela estava parada ante a caixinha de brincos, indecisa. Não era de se maquiar. Deixava nua a pele do rosto. Bastavam-lhe rímel e batom. Fazia questão, porém, da escolha certa dos brincos. A festa já devia estar começando. Saber-se atrasada aumentava sua hesitação. Era nítido o nervosismo em suas mãos a mexer no porta-joias.

Ele, no entanto, não se importava, de fato, com o relógio. Era prazeroso vê-la se arrumando. Ela atendia o interfone, ele entrava e chegava à beira do quarto, encostava-se ao batente da porta, no aguardo. Era sempre assim. Nada dizia. Apenas observava.

Lá fora, o barulho dos carros aumentava. Por um breve instante, os olhos dela correram em direção à janela. Foi como uma aragem. Eles pousaram exatamente no acessório adequado. As mãos tornaram-se, de pronto, ágeis.

Habituara-se ao estilo da amada. Ela conseguia reunir simplicidade e sofisticação, presteza e languidez. Ele só via a beleza cativante de seu sorriso. Os cabelos estavam sempre soltos, em convite para o deslizar dos dedos. A tarde em que ele a conhecera não era de vento. Fosse, e a paixão teria sido arrebatadora. Melhor assim. Houve tempo para a lapidação da querência. Ela era do tipo que exigia vagar e ele comprazia-se com a detença.

O olhar dele não descansava. Acompanhava cada pequeno movimento. Ela, preocupada. Quantos minutos já de espera?

De repente, ela lhe sorriu com um pedido mudo de desculpas no rosto. Estava pronta. Ele nada lhe diria sobre não se importar com o avançado da hora. Seria quebrar o encanto.

   
   

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Registros (a)temporais de pássaros e janelas

  



1.
Brotavam passarinhos no campo. Eram pinceladas de cores em movimento. E eu nem precisava falar, pois a música banhava de som a imensidão azul. Quem inventou de colocar grade nesta janela? Não fosse a presença ingrata, eu poderia debruçar-me à vontade. Daqui não se cai. Quando muito, aos mais descuidados, esta janela poderia abreviar o momento das asas prontas para voo maior. Entretanto, impossível tal deslize, se o canto, surgido da fragilidade de pequenas criaturas aladas, inspira atenção máxima. As grades da janela dividem o mundo entre lá e cá. Que importa a hora dada pelo relógio? A manhã precisa acabar.

2.
Manhã chorosa. Não há cachoeira nem nesgas de céu azul. Apenas um manto acinzentado que pede janelas fechadas. Nem assim os pardais se aquietam. Também o barulho de carros. Eu só queria dormir mais um pouco. O despertador, ingrato companheiro, não me permitiu e todos os sons, como a fugir da fina água, adentraram o quarto. Meus ouvidos têm abrigado o mundo. Os ouvidos, os olhos, a memória... Busco, de conteúdos retidos, a paisagem necessária à animação do corpo. Momentos há em que se faz imperiosa a construção de fantasias. Imprescindível silenciar os pardais. Puxo da arma eletrônica melodia mais sinestésica. “Bem-te-vi ... tua boca pingava mel.” O tempo também pingava. Lá fora. Não esse aqui do relógio, cruel...

3.
As grades do alçapão colhido a esmo em terras outras pediam restauração. Pintei-as de branco. Acreditei assim que se tornariam mais visíveis os pássaros ausentes. O alçapão virou enfeite no beiral da janela. Ornou com o relógio de parede. Algo no ambiente, porém, adivinhava a dor do canto inaudível. Quem era a ave triste, se não aquela que inabitava o artefato decorativo? Não se musicam perguntas. Elas não cabem na pauta musical. Abandono a janela, abandono a visão externa. O ouvido faz movimento inverso e capta sons minúsculos de lágrimas. O pássaro encolhe-se sob as asas. Oh, chuva!...

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

No tempo, fantasmas e anjos...




Os vultos que se apresentam pela fresta
Já não me causam medo.

Houve um tempo,
Os fantasmas entravam pela janela
Eu, criança apavorada, me agarrava ao cobertor
E imaginava coisas lindas com o anjo que era meu namorado...
Cresci. As ilusões cresceram comigo.

Houve um tempo,
As coisas lindas tornaram-se mais humanas e o namorado deixou de ser anjo
Os fantasmas, acanhados, sumiram-se
No meio da madrugada eram quatro as mãos que se agarravam sob o cobertor...
Envelheci. As ilusões envelheceram comigo.

Hoje tudo é vulto
Na necessidade de cobertor eu me agarro aos fantasmas
E mesmo que eles queiram fugir pela janela
Eles sabem... agora são meus anjos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Essa vontade



Cena última
(Descanse em paz, querido. Aqui deitado ao meu lado bem junto de mim para todo o sempre.)

Cena penúltima
...
???
...
(Um dia, há muito, tive vontade de um tapete vermelho na sala, imponente! Almofadas, revistas e duas taças de champanhe. Ficou só no desejo.)

Cena inicial
(Como explicar essa vontade enorme de querer dormir com você?)

Cena intermediária
(O paraíso. E as estrelas brilhavam como meus olhos. Está feliz? Muito. Assim,... acaba amanhã... Não vai acabar nunca.)

segunda-feira, 28 de março de 2011

Como todos os dias


Pois não é que, como todos os dias, o despertador tocou às seis da manhã? E, como todos os dias, tomei o cuidado de pisar o chão com o pé direito ao levantar-me da cama. Segui, quase como sonâmbula, para o banho.

A busca pela temperatura ideal da água (mornitude, mornidez, mornidão?). Como todos os dias, a tentativa da palavra para a minha expressão. Vem daí meu gosto exagerado pelos parênteses, pelos travessões, pelas reticências, que já nem mais causa incômodo ao meu leitor. Mais tarde – fico com a pulga atrás da orelha e o comichão que se instala precisa de sossego – o dicionário resolveu minha inquietude. Pois está lá: mornidão, mornez, mornura. Não me satisfazem. Seleciono tepidez. A água tépida vem prolongar a sensação de cama e lençóis macios.

Pois não é que, apesar do corpo dormente, nu e molhado, os ouvidos insistiram em uma conexão exterior e não deixaram de captar o som do interfone? Com os fios de cabelo densos de xampu, fico dividida entre o pronto atendimento e a impossibilidade da ação. Não consigo simplesmente ignorar o chamado. Chego a ensaiar um processo de aceleração, mas a espuma sinaliza a inutilidade do afobamento. A ausência de um segundo toque parece, a princípio, um alívio.

Minutos depois, estou já à mesa do café. Entre queijos e geleia, pairam algumas interrogações: quem seria àquela hora? o que estaria a querer a visita? apenas mais um indigente? A acusação devedora da consciência. “Bati à tua porta e não abriste.” Vou, como todos os dias, carregar por não sei quantas horas a sensação de culpa. Como daquela vez em que errei o caminho na rodovia e, mesmo o problema resolvido, martelava-me a cabeça a noção de que há erros evitáveis. Como quando, preocupada com a finalização de um trabalho, me esqueci de uma consulta médica. Depois, impingi-me ritos de penitência até a marcação da nova data.

A vida é sempre inexata, sem estrofes isométricas e versos alexandrinos na cadência de cada dia, ainda que levantemos com o pé direito em respeito ao cronômetro que marca o nosso despertar físico. Porque a tepidez da água, em algum momento, se transmutou de salvação para tortura. Não, não foi o calor da água. Tudo são os meus questionamentos, para os quais insuficientes se fazem as superstições e a religião.

Um dia, esquecida de qualquer princípio e despida de qualquer girassol, não me importarão quantos sóis se levantam por entre os horizontes do meu espaço. Se a sonolência se fizer ainda dona do meu instante, atirarei o despertador pela janela. Atenção, distraídos que estejam a tocar o interfone: alguém nessa casa pode, desvencilhando-se das amarras do tempo, descobrir-se livre, sem colocar um aviso na porta...
   

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Um exercício

   





hoje vou fazer um exercício de escrever sem pontuação que é pra ver se a alma flui sem pressa sem interferência sem interrogação também vou deixar de usar a letra maiúscula pois que sem ponto sem marcação de início de frase tudo se justifica

hoje vou fazer um exercício de não falar do cotidiano que é pra ver se a alma flui atemporal universal coisa difícil esta porque não sei existir sem me delimitar sem falar do sol e das estrelas sem pensar na folhinha arrancada do calendário

hoje vou fazer um exercício de escrever bem pouquinho cortando o pensamento quando ele navega nas entremargens da distração que é pra ver se a alma perde a subjetividade e se torna algo assim previsível e sempre reconhecível

necessidade de transformação necessidade também de sensatez mas só hoje que amanhã volto ao normal tudo igual porque

não consigo refrear meu pensamento e ele já vai lá longe um barquinho revolto por entre as águas que sucumbem à força da cachoeira e o que sobra dessa queda sei lá tudo imprevisível é que de repente passa um galho me faço resgate as margens ficam para trás e o horizonte é largo ante as retinas renovadas

não consigo fechar meus olhos a esse mundo de terra-céu-luz e tudo segue o rumo de um relógio cujo ponteiro sim analógico claro me diz que é hora do banho da criança que é hora de fechar as janelas por causa dos pernilongos que é hora do jantar que infelizmente não vai dar pra ver a novela mas quem sabe o jornal ou o futebol ou um filme qualquer que seja e de repente o sono chega

Não consigo. A interferência, a interrogação... necessidades desta alma, que, para fluir, precisa desconhecer que um momento é permanência e outro transformação. Esta alma que precisa da certeza de se saber balizada pela linguagem e busca, nas regras da pontuação, uma forma de justificar sua insensatez. Entre as dobras minúsculas do aparato gramatical, a vida segue como um exercício.

     


sexta-feira, 26 de março de 2010

Folhas de Plátano


        
Descobri, de repente, folhas de plátano espalhadas pelo chão. Olhei no calendário e, apesar do excessivo calor, constatei que já era outono. O desconforto que eu atribuía à sensação térmica, num piscar de olhos, cobrou-me a razão. Descobri, de repente, que a juventude acabou.

Moda vai, moda vem, e não se percebe a passagem do tempo. Até que um dia... dá-se conta de que já não se é o caçula da família, o aluno mais novo da sala de aula, o mascote da turma, o recém-contratado da empresa. E quem vem chegando praticamente sempre tem idade inferior a quem já está.

Como foi que descobri pálido o viço da juventude? Não consigo lembrar em que noite dormi criança e acordei adulta, embora me lembre bem do sabor de amadurecendo dos frutos, inclusive dos proibidos.

Entre as minhas andanças literárias, li uma vez – uma vez é força de expressão (ou será fraqueza?); li várias, tantas vezes, que é assim que costumo fazer quando algo me comove. Bem, li. Em Clarice Lispector. “Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente – como em dores de parto – e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”

Quando li isso, já havia experimentado as dores do parto. Não tinha, entretanto, experimentado essa noção de morte. Eu virava as páginas, sem me dar conta de que os acontecimentos narrados em algumas delas seriam irrecuperáveis e, então, eram já substância inerte. Ao ver a planta brotando, regozija-se com o milagre do verde nascedouro; não há mais preocupação com a semente.

Muito do que li, reli depois das dores do parto. Não havia, porém, percebido a dimensão do heroísmo. Esse de dar a vida num crescente silêncio. Ah, quanto me calo até no que digo! Ah, quanto se calam os meus personagens! E quantos terremotos são abortados no meu calar! O tempo é soberano, poder-se-ia dizer. Tenho aprendido com ele a gostar até dos maus momentos. Ah, as dores! Vou me deixando ferir e fico depois recosendo as cicatrizes. Ora, faço questão de ostentar as marcas que nenhuma maquiagem disfarça, ora isolo-me na vã tentativa de escondê-las. Dureza, silêncio e heroísmo!
     
Domingo a domingo, nesse eterno outono, vão caindo as folhas secas. Entretanto, recuso-me a deixar que a menina seja trocada por uma adulta insensível. Atiro bravamente minhas luvas contra a amargura, saboreando de antemão a vitória. E, acaso, se a natureza me presenteia com um arco-íris em meio à estrada, não considero o risco do ridículo: paro e deixo que as cores me contagiem. Quem sabe eu não brinco com o tempo e volto a ser criança na próxima primavera!