quarta-feira, 9 de março de 2011

As flores de hoje

         
Foto: Arquivo Pessoal


Chego em casa e encontro flores. Um buquê de rosas vermelhas que não me surpreende. Um cartão assinado no qual se lê um elogio à minha beleza. Beleza? Os olhos tristes se perguntam. Onde, no corpo da mulher sem a alegria de se sentir amante e amada? Onde, na alma da mãe que não se percebe no futuro dos filhos? Onde, na memória da filha que não se vê íntima da mãe? Onde, na solidão da amiga que não avizinha mais o milagre da partilha?

Deprimida? Sim... talvez fosse este o diagnóstico psiquiátrico. Mas a dor feminina vai para além da produção de dopamina e do frasco de fluoxetina ou qualquer substância carregada de promessas semelhantes.

Promessa é bem a palavra-chave que sintetiza a cor rubra dessas rosas em botão. A vida interrompida antes da plenitude da flor totalmente aberta. A cor que se empresta como símbolo à paixão e à guerra. O sangue que se derrama pelas ardências alheias e acena, sublime, com a glória e a redenção. Esperá-las-ei, abismada, louca, chorosa.

A praia de areias brancas e águas azuis já não é a paz sonhada, pois que essa paz se perdeu em um par de olhos fugidios e medrosos. Em alguma montanha, que, em breve, a tudo desmoronará... em alguma montanha para trás do sossego, “além, muito além daquela serra que ainda azula no horizonte”... lá, esses olhos. Lugar algum se faz livre dos terremotos da alma feminina.

Não há vaso em que possa acondicionar essas flores. O coração, entretanto, aperta-se ante o provável gesto de atirá-las fora. Lixo é destino insólito para qualquer criatura. Deve haver no armário qualquer recipiente que lhes sirva de abrigo durante seu passar efêmero por minha casa, por minha vida. O mais complicado mesmo é descobrir que fim dar ao cartão que as acompanha – “Ai, palavras, que estranha potência a vossa!” 

Ah! A causa das flores... esqueci-me... hoje é Dia Internacional da Mulher. Mulher? Os olhos tristes se respondem.

10 comentários:

  1. Este texto foi escrito em 08/03/2010.

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  2. Olá!!! Parabéns, perfeita homenagem a você mesmo... adorei o texto..bjs

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  3. Dizem que um gesto vale por mil palavras mas, um gesto duradouro não a efemeridade das flores.

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  4. O texto tem um ano, mas as flores parecem ter sido colhidas há pouco, Márcia. Vai ver foram mesmo, né? Não se pode controlar nem as próprias crias...

    Beijos

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  5. Um texto muito belo! Com a melancolia de quem sabe que a vida nem sempre é fácil.
    Um beijo.

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  6. Márcia, tão belo, tão lúcido, melancólico sim...com todo o esplendor que às vezes a melancolia traz.
    Beijos,

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  7. Olá adorei teu blog, lindo mesmo. Parabéns. Fique a vontade para fazer uma visitinha ao nosso “Alto-falante” e seja mais um membro. Você é nosso convidado especial. http://poetarenatodouglas.blogspot.com/.
    Um grande abraço!

    Renato Douglas!

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