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quinta-feira, 7 de março de 2013

Quando a páscoa não vem...

   


Era março. Sua necessidade de oração crescia, enorme. A angústia que a consumia buscou pretenso alívio nas falas decoradas do ritual religioso. Há muito as quaresmeiras floridas eram retrato perdido de seu passado. Agora, o roxo das vestes sacerdotais pintava os já desbotados quadros da via sacra em sua lembrança. 

Era ela quem caía mais uma vez, sem ninguém que a auxiliasse, que enxugasse seu rosto, que acompanhasse seu trajeto, que amenizasse sua dor. Ela era sozinha na multidão de fiéis. Alguém lavava as mãos? Talvez pior. Alguém lhe sorria. Aproximava-se dela ao fim da cerimônia. O rosto, até sereno, supunha que o cumprimento verbal apagasse todas as faltas.

Aquele encontro, em certo momento, seria mesmo inevitável. Ela voltou a sentar-se no banco de madeira escura. Queria falar-lhe sim, mas do jeito honesto que aprendera na infância: olhando-o diretamente nos olhos. Entretanto, não conseguia encará-lo. Disfarçava o foco, concentrando-se na distorção luminosa dos painéis vitrificados.

Havia nela uma grande vergonha. Sabia-se usada, enganada, roubada, traída. De seus lábios, no entanto, só um pedido: que ele a deixasse sair daquela situação com um mínimo de dignidade. O pouco proferido era quase o latim das inscrições monumentais, como se de fato fosse sua língua materna. Dolor supremus.


Ele não a confortou. O silêncio era lança a ferir-lhe o peito. As mãos dele, abaixadas, afastadas, inertes, eram os cravos da crucificação. Não, não haveria vestes resplandecentes. Apenas o canto longínquo de um galo.
   


sábado, 10 de abril de 2010

Do que vai escrito nas estrelas

     
Acabo de ler meu horóscopo mensal. Meio vencido, pois que já vai um terço do mês! Deus meu!, não ando conseguindo acompanhar esse tempo relativo que o Einstein resolveu decretar. Saudade daquela semaninha de sete dias do Gênesis, em que luz e treva se sucediam normais por seis vezes e na sétima era o direito ao descanso. A astrologia revela-se também tempo, ante meus olhos ledores de qualquer coisa que se faça signo, e traz cronologicamente um fim e um início.

Reproduzirei, mas – ah! – não citarei a fonte. É horóscopo; está escrito nas estrelas!!! Tão fácil também descobrir essa fonte! Eis: “Março acaba e deixa um presente pra você: mais consciência e amadurecimento. Com isso, você pode escolher com segurança onde quer colocar seu empenho daqui em diante. Abril será um mês de desafios e você agora já tem conhecimento pra seguir sem se abater por isso.”

Não pensem, porém, que falo disso sem conexão alguma. Repito aqui essa ideia de encerramento porque a morte esteve próxima a mim durante o mês de março e também nesta primeira dezena de abril. Por pessoa que morreu... por conversa sobre o assunto... por devaneios da mente, por tragédias urbanas... talvez também porque a quaresma insiste em esmagar os últimos dias do verão. A morte... desígnio divino, superação, livre arbítrio. Não pode o homem deliberar sobre o fim da sua própria vida? Se a morte é a única certeza, por que tanto medo dela? Acaso o homem só gosta do incerto? ... E o verão morrendo, para dar lugar ao outono, que também, a seu modo, é morte.

Já me fiz morrer inúmeras vezes nos textos que escrevo. Confesso, às vezes é bom me matar. Faço melodramas, choro horrores observando meu corpo dilacerado em meio a palavras desconexas. Há um sádico prazer na desconstrução. Morrer é fugir do peso que nos imputam ao nos fazerem acreditar que é preciso saber viver. Quem deveras sabe viver? Pecado original é na verdade a dor da existência. A morte é salvação. Porque é prenúncio de vida. Da páscoa que vem a seguir.

A páscoa é o que vem após a morte, no abril da renovação. Algo há de surgir após as indagações. Mas vejam bem o que virá: desafios. Como se cada dia já não me trouxesse um desafio! Oxalá, se não é pra continuar morrendo?... Viver é perigoso, já dizia Guimarães Rosa. E a terceira margem do meu rio me acena com mais consciência e amadurecimento. Claro! O tempo passando, absoluto em sua relatividade. Sou obediente nessa história de amadurecer – por dentro. A pele, rebeldia deliciosa, continua avessa às rugas, refletindo minha obsessão por deixar as roupas alisadinhas, mesmo que isso signifique horas a mais junto ao ferro de passar.

Roupas bem passadas no armário são um luxo, um presente para mim, praticamente um guarda-roupa renovado! Salvação! Elas retornam aos cabides, às prateleiras, todas as sextas-feiras, rotineiramente, pra dizer que o dia seguinte é o dia sétimo. Ainda que a obra não esteja toda feita e que o período do descanso não esteja sob controle de homem algum. Todas as coisas seguem. Escritas nas estrelas!