sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O feijão e o



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Passo um tempo sem escrever. Não é o papel que rejeita a palavra. É a palavra que não quer ser semente no chão que não se sabe fértil. Fértil é palavra paroxítona terminada em L, pede acento. O chão pede assentamento. Agricultura de subsistência, de resistência, pro cerrado não se ir de todo embora. Eu repito o poeta: catar feijão se limita com escrever. E escrevo!


Eu escrevi num passado, quando se vendia o país do futuro. Comprei feijões sem muita esperança de que fossem mágicos. Se o mar não está para peixe, o chão desta terra não está para feijão que mata a fome do próprio povo. Desalentado, o povo caminha. Alguns, em busca da terra não prometida, mas tão sonhada. Outros vendendo o feijão da janta para comprar o almoço.

Virou novela o feijão e o sonho de Orígenes. Nasceu novela o feijão maravilha. E cantando saímos a botar água no feijão. Foi quando comecei a escrever o presente, entendendo o país do futuro. Eu escrevendo escrevendo escrevendo...

De repente cessou.

A linha do novelo

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A linha da escrita

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A linha de produção... do futuro.

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Vi gente se agarrando a outras verdades. Agarrei-me de novo ao Cabral – o poeta; não o da descoberta - joga-se fora o que boiar. Boiou. Quem jogou fora? De repente, eu não escrevo. Eu ouço e choro. Tampo os ouvidos, e mais ainda choro.

Eu escreverei algum dia, talvez dia nenhum, talvez todos os dias, talvez até agora: oxítonas terminadas em L não são acentuadas. Só há terra para a semente da discórdia? Eu escrevi: na fome, o feijão vale mais que o fuzil. Na língua, o fuzil é a pedra daquele feijão mal catado: um grão imastigável, de quebrar dente.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Dar-te-ei ainda, depois de tudo, um copo de cólera*


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Naquele dia, ela desprezou a sobremesa. Não queria nada doce. Às vezes é fácil abdicar das pequenas felicidades para manter o azedume necessário que o cotidiano pede.

Naquele dia, ela desprezou o sorriso. Não havia nada que merecesse uma boca de dentes brancos. Nem mesmo se houvesse consulta marcada no dentista ou uma reviravolta que a tornasse garota-propaganda de creme dental.

Naquela dia, ela desprezou o gingado do corpo em resposta a qualquer acorde dançante. Na sisudez em que se colocara, dispensou mesmo o som automotivo, o rádio e a televisão. Até o celular ficara condenado à falta de toque, no silencioso.

Naquele dia, ela desprezou os fonemas adocicados de seu sotaque e até os fonemas ásperos do balconista sempre insatisfeito da loja de secos e molhados em que costumava comprar uma garrafa de vinho para as noites sepulcrais do marido.

Naquele dia, ela desprezou os diálogos ora afáveis ora ardentes dos romances com que se distraía no fim da tarde, terminados o serviço e o banho diários. Que os livros alimentassem de ilusão e personagens as paredes escuras e insossas da estante…

Naquele dia... ele só desprezou a falta de alma estampada no rosto da mulher. Comeu, bebeu, gargalhou, lambuzou-se dela. Não se deu conta de que dançava na poça de seu próprio sangue até ler o título impresso na capa do livro cujas folhas esvoaçavam próximas à taça de vinho.


(* Homenagem a Raduan Nassar, autor de, entre outros livros, "Um copo de cólera" e ganhador do Prêmio Camões 2016)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Limpei o armário

   

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Eu estava ali perdida para sempre ou, pelo menos, até que se acendesse uma luz. A liberdade não se inscrevia nas irregularidades do muro. Nem as utopias. A luz não se acendeu.

Eu era ainda criança e tinha medo exagerado de escuro. A menina, cabelos cacheados e vestido curto de alças finas, nada podia contra o medo, nem contra o escuro, nem contra a alta muralha erguida em seu entorno. De modo que o muro me impediria indefinidamente de transpor o mundo.

Ali, no todo-o-sempre antes de o sol surgir, não surgiram os fantasmas temidos. Tampouco qualquer som que tornasse as pernas mais aceleradas que o coração. Nenhum ruído externo.

É possível acostumar-se ao escuro.

Os fantasmas vieram bem depois, num tempo de demolições e desembaraços, em que o temor era já outro e eu precisava de promessas. A um deles permiti que fizesse morada definitiva em meu armário. Encobri alguns sonhos. Construí algumas ilusões. Acostumei-me. 

Um dia, porém, descobri que fantasma que não causa medo não tem muita utilidade. Descobri mais: que as inutilidades só são bem-vindas quando não geram lágrimas.

Limpei o armário. Lá no fundo, despida de afetações, minha imagem.

A luz esperada...

quinta-feira, 11 de junho de 2015

dos amores que (não) se fazem eternos




Foi assim que tudo começou. No início pareceu-me que seria simples. Eu não consegui, de imediato, visualizar a estrondosa dimensão daquele ato. Não consegui por uma única razão: não pensei. Apenas acreditei. E me atirei inteira – corpo, alma, coração! Eu sentia a força dos batimentos cardíacos, das contrações musculares, e, ao mesmo tempo, certa leveza, como se folha eu fosse a flanar sob o impulso da brisa.

    Eu tinha consciência somente do seu ritmo, consonante ao meu. Eu fantasiei que o relógio marcaria 18 horas para todo o sempre. Fantasiei também que só haveria dor de exaustão, quando o corpo não mais acompanhasse o frenesi da alma e insistisse na vontade do sono. Para essa dor, eu me aninharia em seu peito e você acobertaria seu rosto em meus cabelos.

    Ah! Mas a simplicidade é só desejo de amantes! De repente a fome se instalou – não esta: a do desejo – mas a fome mecânica de estômagos. Fome de arroz e feijão, que gera panelas sobre o fogão e talheres sujos. De repente não éramos mais dois seres envolvidos na magia do amor. Havia uma casa, havia objetos, havia contas a pagar...

    Nós nos perdemos. Não tecemos o fio do “felizes para sempre” para além do beijo e do amor. Não soubemos conciliar o funcionamento do leito com o funcionamento do mundo. A dor foi lágrima na minha e na sua face. Carregamos, com o poeta, o lema dos amores que não se fazem eternos, mas infinitos enquanto duram. Decidimos colecionar lembranças. 

    Foi assim que continuamos atentos um ao outro. Contentes nas lembranças, nas reminiscências, na busca de notícias, mensagens e breves encontros. Percebemos, neste novo trajeto, que nunca mais seríamos sós. Seria sempre você em mim e eu em você.

    Não fantasiei mais nada. Os ponteiros do relógio caminhavam para nós dois.
   
    

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Algo de confidencial e biográfico em torno de alguns vocativos

 
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Havia um livro de Língua Portuguesa com o qual estudei na sexta série, de cujo nome não me recordo mais. Havia nele um exercício que trazia as frases iniciais de Iracema, célebre romance de José de Alencar. Esse livro didático não me ensinou a gostar de textos literários. Minha paixão pela literatura vem de outras fontes. O exercício pedia para identificar a função do termo “verdes mares” na frase “Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.

  Devo dizer que a linguagem e os fatos linguísticos me fascinaram desde a infância, não pelos livros didáticos nem pelas metodologias de ensino, talvez pelos professores, talvez por gosto aos estudos, sejam eles relativos a qualquer área do conhecimento – Sempre fui excelente aluna! – talvez pelas circunstâncias da vida que me permitiam a escola como única recreação, talvez até pela proibição de falar o que se pensa e o que se quer (Na minha família criança devia permanecer quieta: a ditadura do país repetida irrefletida e inconscientemente pelos pais...).

  Não quero falar de livro didático, de escola nem de infância. Quero falar de vocativos! Daqueles de significado especial, que, quando vêm a memória resgatam uma história inteira. Como, quando da coqueluche lá pelos quatro anos (sim, a doença!). Rememoro, com nitidez, o rosto dos primos tortos com quem brincava na casa de uma tia torta, cunhada do tio, e muitas outras crianças da primeira infância, irmãos, vizinhos, primos. Uma criança mais nova, que não conseguia pronunciar meu nome, chamava-me Maia. Foi um vocativo temporário, da transitoriedade do aprimoramento da fala, com poucos seguidores e muita intervenção dos corretores.

  Baixinha, que sempre fui, convivo com vocativo de mais normalidade: o diminutivo Marcinha, com papel duplo de vocativo e apelido, ao qual se somou a variante Marcita. Até hoje o mais recorrente, o que não perdeu a validade, o que revela as relações de amizade conquistadas e mantidas vida afora, o que uso quando converso comigo mesma.

  Tive um amigo saxofonista que também me interpelava por meio do diminutivo. Porém, chamava-me Marcela. Dizia ele que o sufixo –ela lhe soava mais preeminente. Eu atribuía a preferência por seu estilo mais erudito, até que uma vez ele me revelou que eu era parecida com uma de suas ex-namoradas que tinha tal nome. Perdeu a graça. Deixei de ver como forma rara e privativa.

  Outro amigo, mais recente, amigo virtual, chamou-me Malu, junção das letras iniciais de meu nome e sobrenome. Esse tornou-se chamamento exclusivo, até porque nunca dito nem ouvido por mais ninguém.

  Há outro amigo que registra sempre “querida Márcia”. Soa delicado, até carinhoso. No entanto, fica em mim a sensação de distância. É meio como entender as diferenças de uso entre “tu” e “você” no plano das relações sociodiscursivas. Nas tantas incongruências com que me construo, gosto do fato de ser inteligente, mas não gosto de ver meu lado intelectual se destacando quando o imperativo deveria ser a emoção.

  Os vocativos eleitos pelos filhos variam conforme as fases e os humores. Uns transitórios também. Outros disfarçando segundas intenções: compra, compra!; desculpa!; não fui bem na prova! Ah, filhos da atualidade!... Vai daí eu ouvir, às vezes, mammy, mainha, mããããe, manhêêê.

  Quanto aos alunos, o “professora”, ou “prof”, como tem sido in hoc tempore, desconsidero nesta minha narrativa, visto que direcionados a toda a classe e não especificamente a mim. Aqui, faço um interstício para citar um apelido repleto de exclusividade e que me faz vaidosa (no bom sentido do termo, embora possivelmente com sua dose de pecado): oráculo. Sobre esse não vou dar detalhes. Vou me limitar a espetar um alfinete no balão da vaidade.

  Criança, amiga, mãe, profissional, as polivalências do cotidiano...

  Reservo o vocativo mais doce para a confidência final. Um dia alguém me chamou “minha flor”. Esse, o vocativo que me autorizaria à paráfrase de José de Alencar: Serenai, Márcia. Serenai, minha flor! Mas tenho sido apenas o barco manso que se deixa tragar, sem reação, pela selvagem flor das águas.
   
   

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Nessa parede surdemuda

 
Eu não quero cantar
pra ninguém a canção
que eu fiz pra você
que eu guardei pra você*




        Há quem tenha uma canção que faz lembrar. Eu não canto. Desconheço juras de amor. Não carrego eternidades. Há quem cante no chuveiro. Eu, porém...

       Transformo um azulejo em lousa. Escrevo seu nome. Escrevo meu nome. Escrevo qualquer coisa que me vem ao pensamento e instantaneamente escorre para a ponta dos dedos.

        Confiro o desenho a água, para ter certeza da forma redonda e perfeita da grafia. Nessa parede surdemuda, só faço letra cursiva. Nada que sugira imprensa, que é para manter segredo do registro.

       O banheiro inteiro mergulhado no vapor d’água. Eu não tenho uma escrita de romance, mas fica ali a fantasia, o que, de algum modo, é história. Inacabada. Nem começada. Não há uma canção.

      Eu sei que você tece melodias. Imagino seus dedos no violão. É mais real que a tinta incolor com que preencho os espaços da minha lousazulejo. Porque as notas que você dedilha alcançam o vento que caminha da sua janela para outros horizontes.

     Eu escuto um dó, um sol perdido, e as minhas luas derretem-se em lágrimas. Da mesma matéria com que fabrico letras durante meu banho. Não é para mim que você canta. Eu fico apenas com seu nome, lançado repetidas vezes nessa parede que não vai para outros horizontes.

       Desligo o chuveiro. Enxugo meu corpo. Não há mais letras por hoje, todas diluídas, dissolvidas no que fica de molhado no ambiente. Eu saio, já seca, de você, de meus devaneios...

       Mas há um som que vem pela janela e me deixa úmida. Há em mim dedos inquietos que tentam coletar a canção que eu não fiz para você, a canção que você não fez para mim...
    
    
* Fragmento de letra da música "Nada pra mim", de Ana Carolina.
    
     

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O terço de contas peroladas

 
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Há na madrugada um ruído de avião a cortar os ares. Nesta noite de silêncios, em que não ouço grilos e que meus até então constantes soluços não se manifestaram, percebo tão claramente que amores têm fim, mas o estar com as próprias sensações é para todo o sempre.

O corpo sob o lençol banhado pela luz da cabeceira ainda acesa, apesar do relógio já entregue ao passar das horas. Há um braço que se estica para fora da cama como a trilhar no vácuo do quarto a rota da aeronave. O pouso já garantido no exato momento em que a mão adentra a bolsa sobre a mesa de cabeceira. Não me foi difícil retirar de dentro dela o terço. 

Que de mais proveitoso uma mulher de preceitos religiosos, sozinha, poderia fazer, quando os olhos insones já não vertem lágrimas, a não ser rezar? Correm as ave-marias atrás do pai-nosso e, na verbosidade autômata, vem a palavra: glória.

O pensamento rompe o palavrório decorado. Palavra bonita aquela. De pompa. E, ao mesmo tempo, podendo ser nome de pessoa. Teria meu mundo outro matiz, caso o batismo me desse a glória de um nome assim, me desse por nome Glória?

O poeta já bradara “se eu me chamasse Raimundo”... não, não era solução. Mas o desvario do pensamento já ia solto a casar-me – Glória – com o belo Fausto. “Ah, que serei eu se não puder”...

Eu não buscava soluções nem rimas. Eu tecia um mundo de flores coloridas e adereços dourados. Um casal caminhando de mãos dadas por sob uma abóbada azul escura salpicada de estrelas. As contas do rosário desprendendo-se. Eram luzes. Cresciam. Moviam-se. O céu enchia-se de aeronaves e havia uma cantilena de ave-marias enredadas até se espalhar o som de Glória. Aí a garganta era como um repicar insistente de sinos: glória, glória, glória. A noite infestada de anjos...

Ó, luz! Deus, eu dormi! Sonhei. Só pela manhã descubro a luz acesa. Percebo também a bolsa caída, os pertences esparramados próximos à cama. Dentro da bolsa, um único objeto, retido sei lá como: o terço de contas peroladas.
   
   

domingo, 21 de setembro de 2014

Asa sem par


Adaptação de imagem disponível neste link.



          Estou enterrando uma pessoa especial. Sim, eu tinha uma, apesar de detestar o termo. O que é especial tende a ficar guardado. Sempre quis coisas e pessoas comuns, para o dia a dia, para toda hora, sem esperar por ocasião. Mesmo assim, cultivei uma especialidade. Rara. Em tudo. Na beleza, no sentimento, na possibilidade de estar junto.

Não havia como ser diferente. Até o resplendor mais viçoso se perde, quando abafado. Com a distância constante, o sopro vital foi se extinguindo.

Estou enterrando essa pessoa especial. De modo lento, doloroso, nos intervalos de sol e chuva. Esmero-me em cumprir todos os ritos de que o luto necessita. Vão as velas do velório. Vão as velas dos olhos. Tudo que é luz e brilho aos poucos submerge nas águas da despedida.

Desvencilhar-se é processo muitas vezes imposto. Já me tiraram tanto, induzindo-me a crer que é preciso que o antigo se vá. O caderno de poesias da infância... As amigas da adolescência... O imponente estofado de estilo clássico... Os discos de vinil... Os sonhos de amor... Aceitei. Aceito as regras. Porém, sofro. O peito dilacera-se sem testemunhas. Pro diabo essa coisa de desapego, viver com o mínimo, trocar de opinião, mudar de ares! Acaso conhece alguém as minhas intensidades?

Entretanto, é imperioso esse desfazer de agora. Dou a volta ao mundo em busca de detalhes sobre as solenidades inventadas para o momento da morte. É para chorar, beber, cobrir o corpo de preto, aprisionar-se, atirar-se na pira fúnebre?

É para fugir de mim mesma. É para enfrentar-me a mim mesma! Virar o jogo, revirar as gavetas, recriar a coreografia. 

Tem que ser assim. Devagar. Tomar a dimensão da cova de longe. Achegar-me. Deitar o olhar para dentro do buraco. Esboçar um gesto técnico, como a verificar a métrica do espaço. Caberá! Debruço-me a lançar terra, punhado por punhado, apertando-a entre os dedos, entre a tristeza, entre a desilusão, para que sumam das mãos todas as linhas, para que a história se perca no nevoado da poeira.

Tu virarás pó. Talvez eu venha a me sentir incomparavelmente só... Talvez o balé se produza mais belo, mais consonante, repaginado em asa sem par.

Já a última mão de terra. Depois é dizer fim. A derradeira, cujo poder é transformar-te para sempre em pó... Mas, justo essa, o braço, exausto de fantasiar tantas danças, não consegue completar.
   
   


sábado, 9 de agosto de 2014

Sobre paredes e elefantes...


Sobreposição de foto disponível neste link em plano de fundo de criação própria



     Com a ponta das unhas ela ia aumentando o desenho do descascado na parede. Lasquinhas de reboco coberto de tinta salpicavam-lhe a calça jeans. Ela já estava sentada naquele canto do chão há provavelmente uns 40 minutos. Não havia ânimo para outro afazer. Nem mesmo o vento frio lhe arrancava da inércia. Era nele que ela pensava, que ela paralisava...
    
     A vida era campeã em suas crueldades. Dera-lhe de presente o encontro tão ansiado. Algum tão pouquíssimo tempo depois cismara em lhe esbofetear o rosto. De ímpeto, ela fora cristã. Ofereceu a outra face. Deixa doer. Pois até dor é bem vinda! É bem vida! Agora, era só o marasmo.

     Já havia um elefante na parede corroída. Seus olhos piscaram, assim, em tentativa de afastar tênues poeirinhas. Ela suplicou por uma manada de paquidermes, que o estrago pedia exageros! Não vieram. Houve, porém, foi uma gargalhada na casa vizinha. A parede, perdendo a espessura, reverberava as ondas sonoras e seu ouvido mostrava-lhe que era inútil fingir isolamentos.

      Começou a passar a palma das mãos pelas coxas buscando limpar a calça. As unhas agradeceram o descanso. Por uns minutos a mente também, mas veio de novo a gargalhada. Pelo estridente, era, com certeza, riso feminino. Esse gargalhar feminil que as ausências pouparam a ela. Alguém alegre? Como podia haver alguém a rir no mundo, a rir do mundo?

      No entanto, era injusto pedir silêncio. Ela não queria o silêncio de ninguém. Ela não queria o silêncio dele. Ela queria... um remédio para as unhas? De repente passaram a arder com tamanha intensidade. Parede ingrata! Atraíra-a para uma função insana e, indiferente ao áspero afago, traía-a, no momento seguinte, com risadas e garras lancinantes.

      E daí? Desconhecia-lhe a força? Ela não choraria. Apenas abriria a porta à espera dos elefantes. Em hora mais inesperada – era certo! – eles chegariam!

    

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Receita de médico


Adaptação de foto disponível neste link


Doutor, não me passe esse remédio, não vou tomá-lo. Sei que me foge a memória, mas não para as coisas. O que esqueço são apenas os nomes: o nome do pai, o nome da rosa, o nome da fome.

Eu me lembro criança, lá pelos onze anos. Eu vestia meu vestido vermelho de manguinhas bufantes, de tecido fino e bordado com linha, flores brancas. Eu me sentia princesa, apesar de não haver um belo sapatinho. Houvesse-o e talvez eu me sentisse deusa. Tudo era providencial, na verdade. Eu sempre me necessitei humana. Domingo, eu ia para a igreja com meu vestido vermelho e chinelas havaianas.

Havia uma loja, vendia calçados e roupas. Eu passava em frente àquela loja e parava a admirar a vitrine. Desejava tanto uma daquelas belas sandálias! Mulher tem paixão por sapatos desde pequena, sobretudo quando não os pode comprar. Não me ocorre mais o nome da loja, mas me lembro de que uma das filhas do dono era minha professora de Artes. Lembro-me do nome dela. Lembro-me do nome de todas as minhas professoras, dos professores também. Não é estranho, doutor, que desses nomes eu nunca me esqueça?

Eu falava do vestido, aquele vermelho, que me tornava princesa. Isso foi mais ou menos à época de uma copa de futebol. Os meninos completavam álbuns de figurinhas das seleções. Eu tinha algumas amigas e adorava quando a chuva despencava vorazmente bem justo no momento de voltarmos para casa ao término das aulas. A água da enxurrada banhando as pernas era como o mar, que eu só conheceria uns quinze anos depois. Eu me sentia feliz e livre quando a roupa pingava em consonância com o céu. Corpo e alma encharcados.

Está vendo, doutor, que minha memória é boa? que não necessito de remédio algum? Só me preciso mesmo humana. Do que me esqueço é o que o vento precisa varrer, à força maior de desvestir as ilusões. É que deveriam sobrar apenas os vazios dos álbuns, os jogos perdidos, a falta mesma do troféu. É que deveria sobrar apenas aquele vestido vermelho, que nem me cabe mais, que agora deixaria o corpo tão exposto quanto os pés. É assim que o mar há de me encontrar quando eu for lavar os olhos e o estômago.

Remédio precisa quem ainda tem sonhos. Eu tenho reminiscências apenas, e elas, muitas vezes, carecem de nome. Basta-lhes um resíduo de pretérito, feito as flores brancas bordadas, que já se desmancham, que já se desprendem do tecido. Caídas pela calçada, mais lhes vale um pé nu. Pisa com ferida de dor menor. Ou quem sabe a correnteza da chuva forte, que possa arrastá-las para um campo verde. Dar-lhes a sensação de vida real em vez de arte anônima de costureira.

Não, não é algo que evite os esquecimentos que vim buscar. Honestamente, não. Preciso é de um sonho novo, rodopiar feito pião, a saia vermelha girando, girando enquanto subo a rua da igreja. É este o meu momento de baile. Sou princesa. Sou humana. De pés descalços.
   

domingo, 6 de julho de 2014

Ah! Um guarda-chuva?





        Havia pequenas frestas de céu azul por entre as nuvens. Em outras ocasiões, o céu assim se fechando em cinza, lhe causaria grande aflição. No entanto, as pouquíssimas chuvas dos últimos três meses já haviam deixado fortes marcas de ressequimento na paisagem a ponto de qualquer gotejamento ser ansiado em profundo. Olhar aqueles verdes já em palha era lembrar que o tempo também lhe ia levando a juventude, que seu rosto, a cada dia, trazia um novo vinco, que a sequidão tinha algo de um amargo irreversível... Aquelas pesadas nuvens que se iam ajuntando eram alegria.

        De há muito a água que escorria vinha para solver outras poeiras e deixava-lhe a pele em sal. As nuvens agora acenavam com outro paladar, para curtir assim, como se bebesse o mais nobre vinho de castas especiais!

        Engraçado é que suas lembranças de chuva até então não lhe eram muito agradáveis.

        Era o temporal de quando ainda adolescente, que destelhara o barracão em que sua família morava. Da noite para o dia, o quase nada que havia, tudo perdido, e, na sequência, meses de dolorosa reconstrução marcando o cenário no qual pauperrimamente ela debutava.

        Era também o sonho romântico da jovem romântica que a habitava, o sonho nunca realizado de que um dia surgisse de algum além um moço que, em máximo êxtase de paixão por ela, andasse por marquises e rodopiasse em poças d’água a imitar Gene Kelly. Ela havia nascido para as agruras da vida, para os espinhos. Era forte, destemida, inteligente. Não lhe coube o cor-de-rosa delicado que a fizesse princesa aos olhos de um cavalheiro cuja alma estivesse banhada no mesmo romantismo que ela escondia até de si mesma.

        Era ainda a enchente que, impiedosa, devastaria sua casa, alguns anos depois, fazendo-a – em meio a filhos, fraldas e mamadeiras – agarrar-se a qualquer subterfúgio que lhe desse o direito de resgatar um pouco de sua memória. A lama na gaveta do criado-mudo tornando invisível e ilegível parte do que lhe era sagrado. Que se recuperassem, no mínimo, algumas fotos...

        Definitivamente, suas lembranças de chuva... não eram para ser lembradas. Apague-as à borracha a irreversibilidade do tempo! Ah, que nessas ocasiões o tempo é traste e vence a si próprio em crueldade! Não apaga.

        Mas, eis que o céu insiste em se mostrar agonizantemente lindo. Em soluços, de uma felicidade que não lhe era íntima, correu a fechar as janelas. E cantarolava, misturando sua voz ao som dos pingos que grossamente caíam:

“come on with the rain
have a smile on my face.
I'll walk down the lane
with a happy refrain
just singin’
singin’ in the rain”



segunda-feira, 23 de junho de 2014

Por um leviano acaso


Igreja de São Francisco - Évora - Portugal - Foto de acervo pessoal


O maldito horóscopo mensal dizia que era momento de esquecer de vez o passado e abrir-se para um novo amor. Ela nem sabia direito por que resolvera seguir aquela previsão. Não se importava com essas coisas nem se sentia presa ao passado. Apenas gostava de se perder entre as boas lembranças. Talvez fosse a época, aquela altura do ano em que se tomam resoluções de transformação e se renovam as esperanças. Ah, o futuro das incertezas, povoado de quimeras.

Ela crescera sob a imposição de castigos. Via cada ação seguida de reação e esta geralmente de caráter punitivo. Entendera cedo por que alguns se impingiam o autoflagelo. Entre o não faça isso, não faça aquilo e as suas aspirações e visões, pairava sempre uma sombra ameaçadora. Sombra era até eufemismo. Era mesmo um espectro a persegui-la, cortando as possibilidades já pela raiz. Ela sentia medo. Habituara-se à cautela. Tudo em suas atitudes evitava a tragicidade sísmica.

Assim, na tradicional calmaria, construía hipóteses para os sofrimentos. Às vezes não encontrava as plausíveis justificativas. Definiu a crueldade como resposta para eles.

Mas, por um leviano acaso, fora ler aquele presságio dos astros. Sua carência antevira ali um sopro alvissareiro e, provavelmente pela primeira vez em sua vida, deixara-se levar pelos novos ventos. Agira sem dar ouvidos à razão. Mergulhara em um desvario de conhecimento só seu. A consciência ditava o sigilo. Havia aqueles instantes em que a alma queria gritar, transbordar, porém ela sabia que era necessário manter-se calada. Isso não doía. Ela estava acostumada ao silêncio.

Difícil era afirmar em que momento a luta entre o pecado e a libertação se tornara mais ferrenha. Fato é que ela passara a não dar conta mais de si. Temia enlouquecer. Foi com esse receio que ela saiu de sua casa em direção à igreja. Desde o dia daquele acontecimento, ela se afastara do ambiente religioso. Evitar essa exposição era seu mecanismo de autoflagelo, assim tão sem alarde quanto ela mesma. Ninguém suspeitava. Entretanto, algo dentro dela parecia pedir castigo maior.

Ela caminhava, ora com passos firmes, ora como se estivesse abandonada a um trajeto obscuro. Era a batalha! O sol atingia de cheio seu rosto, ignorando a dor que lhe abraçava. Onde buscar persistência? A astrologia nada mais sinalizava. O livre-arbítrio soava como programa humorístico que já não arranca uma só risadinha da apática plateia. Algum charlatão (o deus punitivo da infância?) zombava de sua insegurança – ela percebia.

O tempo, cruel, trazia-lhe o vaticínio. Andasse como fosse, a distância seria vencida. Ela chegaria ao destino proposto. A construção surgia diante de seus olhos, completamente estranha ao seu embate. Ela ainda levantou a cabeça, sem nenhum lampejo de altivez. Somente desejosa de um milagrezinho qualquer.

Não tentou ler no céu o rumo dos acontecimentos quando saísse dali. Tampouco pensou se realmente conseguiria se entregar ao ato de contrição. Deixou apenas que as lágrimas escorressem. E entrou!
   

sábado, 3 de maio de 2014

As estrelas





Uma e meia da manhã. Fui ao terraço porque precisava recolher umas roupas do varal. De repente olhei para cima e vi as estrelas. O céu estava suavemente lindo. Pensei em você.

Eu poderia amar você se isso fosse possível... Não era.

Então me lembrei de quando eu tinha quatorze anos e minha família havia se mudado para um bairro afastado de uma pequena cidadezinha. Ambiente bucólico, rural. As noites tinham um céu como esse que acabei de ver.

Não me senti velha. Senti, porém, que havia uma distância tão grande entre a garotinha e a mulher, entre aquela época e esta. Não distância de tempo; distância de mim mesma. As estrelas me fazem falta.

Eu durmo numa bela cama, com belos lençóis, mas o mundo não vem para o meu sono. O mundo ficou preso naquele céu.

Uma ave notívaga me faz recolher meus pensamentos. Vou dormir, que já passou da hora. Ainda penso que eu poderia amar você, se fosse possível. Mas, sou só eu na cama.
    

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O novo código





ainda tem você na sala
porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro
dentro de um livro*

Gosto do ritual da decifração, compreender o que se esconde de infinito por entre os códigos. Ler é vício, é meu ar. Por isso, há livros espalhados por toda a casa. Volta e meia, pego um, folheio... é o que faço neste instante. Ah, o cheiro! que embota os sentidos... O que está a me acontecer?

Inebriada, vejo o mistério tomando corpo. Há um livro que não consigo ler, escrito em língua que desconheço. Você é o desafio. O livro indecifrável!

Vou até a estante. Você está lá...

Busco ferramentas: dicionários, livros de linguística histórica, anotações de sanscritologia. Deve haver alguma pista, algum registro desses sinais intransponíveis. Desenho mapas, traço relações paradigmáticas, somo símbolos, comparo hipóteses. Desespero-me em busca de tradução. Uso todos os meus recursos para desvendar enigmas. Nada! Você continua uma incógnita.

Caminho desorientada. Abro a gaveta do criado-mudo. Você está lá...

Invadida de aflição e descrença, chego à sala sem consciência de quantos passos e degraus me afastaram do quarto. Estou como anestesiada pela impotência do analfabetismo. Não sei ler?

No entanto, há uma sensação de que a chave já está conectada. Eu respiro! Estarão os meus olhos vendados? Será a linguagem clara e fluente e eu apenas preciso reaprender a ler? Perco-me nas interrogações e escapa-me o óbvio?

Deixo de lado os livros. Todos. Os lidos, os relidos, os deslidos. Escuto sons de escola. Há uma lousa verde. Um texto vem surgindo. Não era necessário que houvesse cartilha. Todos os grafemas exalam a calor, pintados de suor e ritmo. Música!

Constato: não, você não é um livro; você está em todos os livros. Posso abrir qualquer um. As letras configuram-se em código novo: o seu cheiro. Ah, o cheiro!

* fragmento de Vambora, de Adriana Calcanhoto
   

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

E o vento não levou...

 


Há muito ela perdera o hábito de telejornais. No jornal impresso que assinava, escolhia com cautela as seções para sua leitura. Interessavam-lhe, mais que as notícias, as resenhas de romances e de livros de filosofia e sociologia. Igualmente, faziam parte do seleto rol as tirinhas e as propagandas de lançamentos imobiliários. Nas primeiras, buscava subterfúgio para as agruras da rotina. Nas últimas, entrevia a possibilidade de uma casa que lhe prometesse bem mais que abrigo. Em tempo algum se debruçava sobre notas sangrentas e sensacionalistas. O horror que lhe causavam era já antídoto que a mantinha longe.

Por aqueles dias, no entanto, os jornais andavam intactos sobre a mesa de apoio da sala. Indiferente a eles, seu desejo se instalara em outro plano. Não granjeava palavras elaboradas, nem ideias avançadas, nem alimento para curtas risadas, muito menos esconderijos aconchegantes...

Seu desejo ganhara corpo, companhia para horas de êxtase que a faziam descobrir as pernas e se descobrir. Notícias e reportagens para quê, se aqueles momentos poderiam lhe valer toda uma existência?

Preparava-se com esmero para a chegada daquele homem: a veleidade espantava a prudência, a ansiedade derramava blush em suas faces. Era preciso fazer vento para dissipar o calor que a consumia. Ela não titubeava. Ligava com antecedência o ventilador de teto.

Naquele momento, portanto, havia, na sala, estendida sobre o sofá, a languidez de um casal que acabara de fazer amor e havia também a agitação de um ventilador de teto ligado. Coube a ele o gesto harmônico de unir repouso e movimento. Foi assim que a ergueu nos braços e a fez rodopiar.

Cuidado! O ventilador! A cena delineou-se em ambas as mentes. Ele estancou o movimento. Por breves segundos, fez cara de susto, para, em seguida, despencar em riso solto. Acusado de matar a amante! Já pensou? Decididamente, ele não queria ser manchete de jornal. Até porque ela não poderia lê-la...

Colocou-a no sofá sem perceber que ela vira sua morte nos olhos dele e que ela fora subitamente tomada pela vontade de ser cega para não ver o olhar que evocava certo presságio. Um dia ele a mataria, sim, de modo muito mais cruel. Iria matá-la dentro dele, no coração, na mente, nas lembranças. Ela sofreria sem que ninguém jamais soubesse. Essa tragédia não seria noticiada em jornal nenhum.

Contraditoriamente, também se deixou levar pelo riso. Talvez até preferisse as hélices do ventilador, mas ela o pouparia do escândalo. Sabia que nunca iria querer nem o mais mínimo dos males para ele.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sandices



Imagem disponível neste link.


Meu bebê chorou a madrugada inteira. Não dormi tentando acalmar-lhe as lágrimas. O resto da vida, para além do ininterrupto choro, parecia ser só silêncio. Foi quando a louca que esbravejava com ninguém cortou o escuro da rua. Só eu devo ter ouvido o seu discurso de injúrias. Por um momento, cheguei a me ver tão louca quanto ela, talvez até mais. Ela mostrava a coragem que eu não tinha e isso a salvava. Minha salvação era o choro daquele bebê, já inaudível, tão longe!... eu não tinha filhos.

A vontade de ser mãe ficou no sonho. Justo eu, talhada para a casa cheia, para a cozinha cheirando a canela, para o arroz doce que cozinhava lentamente no fogão. O marido exigia os filhos que nunca chegavam. Foi para a rua. Encontrou outras mulheres, que satisfizeram seu desejo. Eu fiquei, no espaço imenso entre as paredes, condenada à solidão. Os irmãos sumiram. De pai e mãe eu já não sabia dizer. Eu nunca me casei.

A vontade do vestido branco e de entrar com o pai na igreja ficou no sonho. Eu, moça prendada, tantos primores culinários, o capricho do enxoval bordado em ponto cruz, seria para sempre solteira. A vergonha da família, o peso da família. Quem dela cuidará na velhice? Levem-na para a casa da Dasdor, há quarto sobrando, ela ajuda a cuidar dos sobrinhos, haverá arroz doce nos fins de semana. Eram os irmãos tecendo conjecturas. Seria um sobrinho o bebê que chorava madrugada afora? Nada se ouvia. Eu não tinha família.

A vontade de família era só um sonho, acalentado desde a infância. Anos de história mal contada enterrados no meu corpo de mulher. Talvez tenha sido isso que me deixara oca por dentro, sem sentimentos, sem útero, sem possibilidade de vida nova. Eu nada sabia dizer sobre meu nascimento. Filha de quem? Uma qualquer abandonada, que sobrevivera pela caridade alheia. Como chegara assim aos dias de hoje? Não sei do que me nutri. Eu desconhecia a solidez dos alimentos. Só água havia.

A vontade de água não era sonho. Meus olhos se desfaziam nas vinte e quatro horas que marcavam cada dia. Eu não dormia. E não era por tentar acalmar as lágrimas. Era para não perder nenhuma delas. Não contei a ninguém, podiam achar que eu estava louca. Eu nunca ensandecera. Coletava toda a água dos olhos para construir um rio. Era preciso aquele curso d’água. Só assim as flores se batizariam em nome do pai, do filho e do espírito santo, e a salvação se instalaria no mundo.

A vontade de salvação não era sonho. Ela fazia parte de todas as paredes da casa, ainda que ninguém mais a habitasse. Foi depois que o rio, no início apenas um olho d’água, foi se nutrindo das minas brotadas nas noites insones foi ganhando força foi rompendo os obstáculos e no denso que se tornou carregou para fora todas as pessoas. Dizem que houve uma sobrevivente. Não contem a ninguém, eu peço, mas há uma louca cuja voz corta o escuro das ruas à noite, em gritos pranteadores, por não conseguir acalmar o bebê que chora a madrugada inteira.
  

domingo, 13 de outubro de 2013

janelas de ver e voar


     Tinha eu cinco anos e, pela primeira vez, devorava o mundo por uma janela. Estávamos em férias. Era a casa de meu avô paterno, com suas janelas de madeira pintadas de azul forte. Era a cidade da família paterna. Eu ainda não tinha a noção de pertença ao lugar, não percebia o significado de ser ali minha terra natal, eu não sabia que o ferro (daquela estrada por onde o trem passava repetidamente), tal qual a Drummond, também marcaria minha alma. Era a primeira vez que a paisagem adiante não se fazia rua e casas. Havia um estender de chão para além de onde a vista alcançava, um imenso verde que muito à frente se findava no azul celeste. Aparecia, às vezes, um pequeno avião, enchendo, com seu sobrevoar, meus olhos alados de criança. Décadas mais tarde, descobri, em um livro que trazia a história da região, que o monomotor pertencia a um grande empresário, dono de várias fábricas de laticínios instaladas naquelas paragens. O gostoso, naqueles momentos, àquela idade, era colocar os cotovelos no peitoril da janela e respirar o paraíso que eu não via morando em bairro pobre da capital.

     Aos quinze, não foram férias. Foi mudança. Por um período, a janela que para mim se descortinou era a da casa da avó materna. Situação bem diferente. Era o quarto em que dormi por alguns meses. Quarto de fundos. Casa antiga. Janela de madeira de duas folhas que se abriam para fora e se fechavam por trinco. Aberta, a janela pintada de cinza dava a ver o quintal. Lá fora só o tanque e o muro. Mas eu não estava a me importar com o mundo à frente. O sentido do voo era inverso, diverso. Eu queria ver o mundo ao lado, na pessoa com quem eu mais gostava de conversar. Eu queria ver o mundo de dentro, nas descobertas que a adolescência impunha. Foi com os cotovelos no peitoril daquela janela que o primo, beija não beija, não me beijou.

     Outras mudanças vieram. Não houve mais tempo para se perder à beira de janelas. Entretanto, despontara dentro de mim uma necessidade constante de céu azul. Passei a ansiá-las amplas, transparentes, de modo que nem se precisasse aproximar tanto para vê-lo. Bastava um rápido correr de olhos para o aquietamento das inseguranças de minha alma. Nas tentativas de aquietar-me, o mundo vinha pela abertura dos panos de vidro. Os dias foram se acumulando num desfilar de situações novas e velhas: trabalho, família, amigos, problemas, soluções... Minas eram muitas e me conduziam em direções várias. Apesar do que ia pesando, eu fui me deixando levar, o pensamento e os sonhos voando... Em momentos de pouso, dei-me à minha terra, às gentes com quem criei laços, aos amores que vivi. Não sei se me dei ao Amor...

     Hoje, na casa em que moro, não há janelas em que eu possa me debruçar. Ora são grades; ora, a própria estreiteza do artefato. Se ali os vôos não são permitidos, há, porém, um terraço, para o qual, às vezes me refugio. É ele uma imensa janela com vistas para um imenso céu, que já não contemplo em seu azulejar, mas, à noite, quando há estrelas em profusão, quando há notícias de eclipse e, principalmente, quando há lua cheia. A certeza de que há, para além de onde a vista alcança, todo um universo que me faz grande e pequena em um só tempo. A mesma sensação de quando me vejo frente ao mar das praias oceânicas. “Mundo mundo, vasto mundo”, roubo o verso de Drummond, despindo-me nesses instantes dos oitenta por cento de ferro que se apoderaram da minha alma. No alto, de encher os olhos, aquele todo estrelejo (roubo a Mia Couto essa última palavra). Divago na literatura que me vai dançando da mente ao corpo. É por essa ininterrupta janela que pressinto o Amor e me vejo Penélope a desmanchar todo o trabalho do dia enquanto creio vivo Odisseu, a caminho do reencontro.

   

domingo, 29 de setembro de 2013

As lições de minha avó


  Foto: acervo pessoal


     Eu tinha vontade de ter ouvido minha avó contar a história da vida dela. Queria ter conhecido cada detalhe do que as tias – só algumas – contam, por alto e sem muito conhecimento, de que a vó fugiu de casa para se casar com o vô, militar, mulato, pobre, sem morada fixa, mudando de cidade a cada novo destacamento. Palmilharam ele, a avó, os filhos e toda a mobília por várias estradas do sul destas Minas. O cortejo de filhos ia aumentando, uns morreram, ficaram por aí enterrados os anjinhos, túmulos talvez jamais visitados.

Minha avó nunca abriu a boca para contar essas histórias aos netos nem para reclamar das circunstâncias. De suas dores, a gente só sabia – quem para isso tinha sensibilidade – pelas outras coisas que ela dizia. Eu ouvia, umas me doíam, até mesmo pela pouca compreensão característica da idade.

Foi, por exemplo, quando nasceu um novo priminho, seu neto provavelmente de número 28, numa época em que ainda não havia as previsões certeiras dos ultrassons. Eu lá pelos 15 anos. A notícia chegou por telefone. Ela, calma como sempre, após desligar o aparelho, fico muito feliz quando ganho mais um neto, mas fico mais feliz ainda ao saber que é menino, pois mulher, por melhor que lhe seja a vida, terá seus pedacinhos. Custei a dar sentido a esses pedacinhos.

De feita, ela na cama há mais de ano, a esperança de se livrar da sonda nasogástrica já se exaurindo, eu sentada ao seu lado. Fazia-o sempre que possível, apesar do trabalho e do estudo. Ela pedia que segurasse sua mão. Ficava longos minutos na mesma posição, olhando para o alto do guarda-roupa, onde havia algumas caixas. Depois falava alguma coisa, um comentário qualquer, está precisando tirar a poeira daquelas coisas ali no alto, nem deveriam estar ali. Ela pedia para mudar de lado, alegando cansaço, mas pega minha mão de novo. Então ela me disse você seria ótima enfermeira, minha neta, você tem muita paciência e serenidade. Na hora só pensei Deus me livre de ver sangue e dor. Custei a entender que ela, de fato, não falava de futuro profissional, mas elogiava minhas qualidades.

Dela, quando ainda tinha saúde, recebi, de um modo particular, bastante prático, de quem já sofreu privações intensas, algumas lições de economia. Havia o orgulho de descascar as batatas, tirando as cascas mais fininhas, muita gente desperdiça porque não consegue fazer assim. Até aprendi. Outras lições, no entanto, não segui. Já elas me seguem. Não consigo me desfazer de um saquinho de papel, desses que embrulham o pão, sem me lembrar de que ela os juntava para trocá-los no moinho de fubá: 100 saquinhos destes, dizia, ajeitando-os com as mãos, um a um, eles trocam por um quilo de fubá. E a gente subia a rua até o moinho e voltava um quarto de hora depois com o ingrediente para sua culinária mais apreciada: a broa de fubá da vovó. Hoje dobro todos os saquinhos do mesmo jeito que ela fazia, para, só depois, colocá-los junto aos materiais recicláveis que devidamente separo para a coleta seletiva. Dói-me muito ver os catadores passando e levando somente latinhas e garrafas pet – são mais lucrativas. As embalagens de papel ficam ali, não raro, espalhadas na calçada. Meu coração se espalha também...

Minha avó colecionava tijolos, que ela encontrava jogados na rua ou em restos de construção. Com eles construiu o muro da garagem de sua casa. Era uma das mulheres mais ativas que conheci. A festa de Natal ou de Ano Novo podia terminar às 2, 3 horas da manhã, às 5 ela já estava de pé. A hora de deitar não altera a hora de levantar, afirmava. É nisso que me fio quando preciso trabalhar até mais tarde ou quando velo a doença de um filho ou a morte de um tio. A energia vem, forçada pelas circunstâncias e inspirada na avozinha.

No dia em que a doença, que a consumiria durante oito anos, bateu em seu portão, ela estava justamente a pintá-lo, ela mesma, ignorando o mal estar que não a ignorou. Naquele dia, eu soube que nunca mais haveria a possibilidade de ouvir as histórias que me interessavam, mas comecei a ouvir a lição que viria repetidamente: Não importam os entreveros da vida. Há pessoas que nascem para ser cuidadas; outras, para ser cuidadoras.
   

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O labirinto





Era feriado e pus-me a andar pela praça de minha cidade. Cidade pequena, mas de praça extensa, em que se cabiam pernas e mais pernas e sonhos e mais sonhos. Os meus, não por menos, também andavam por lá, mais especificamente, àquele momento, pelo coreto. Ali, o ponto mais alto, só ficando abaixo das torres da igreja. Eu não poderia, porém, subir nas torres da igreja. O coreto era acessível – para as pernas, para os sonhos.

Eu olhava ora os capitéis, ora as muretas, ora o além que o horizonte me oferecia. Entre um e outro repouso da visão, era o ouvido a captar a algazarra de bandos de moleques que corriam para os campos ou de bandos de maritacas que manchavam de verde o azul do céu. Eu me percebia só sentidos, esquecendo-me propositadamente, de que pudesse haver algum motivo, ínfimo que fosse, para atiçar-me a necessidade de reflexão. Era, pois, dia de qualquer coisa que transformava aquelas vinte quatro horas em dia de nada. A tarde era minha, sem acontecimento que se interpusesse entre mim e ela.

Acontece que o sentido, feito criança teimosa, não raro insiste em ornamentar-se de fantasia e memória. Um cheiro de perfume, um toque de seda por sobre a pele... e vêm os anjos a desfilar. Da memória, saltam as palavras e tudo o mais de símbolo na paisagem e de pergaminho na ponta da pena que vai à mão. Da fantasia, erige-se o casebre que, de fato, nunca se construiu e, talvez por isso, nunca viesse a ser habitado pelo moço bonito que visita meus sonhos em todas as madrugadas, pontualmente às quatro da manhã.

A casinha ficava ao pé da serra. Tinha janelas e portas azuis. No sofá da sala é que o casal se sentava, bem no finzinho da tarde, a esperar pelo clarão da lua. Nesse meio tempo, o silêncio pungente saía a passear com as formigas, em correição. Desengavetavam-se os afetos e transportavam-se todos eles para o abraço, para o beijo. O cubículo era luz, apenas! Mas, um sopro, e eis que a tênue nuvem... onde? tempestade!

Foi pela imaginação e pela lembrança que eu não voei do coreto. Os pés se fincaram ao chão de cimento e quartzito. Os pés criaram paredes e recantos. Aproximava-se a hora da comemoração solene – dia de quê, afinal? Vozes outras, sons outros... o burburinho não me fazia reconhecer o que havia para mais que dois passos. O que se fizera dos degraus que conduziam à saída? Prisão, quando se pode caminhar, mas não se pode mudar o espaço?

Festa na praça. Indiferente para mim se é celebração de bodas ou execução em guilhotina. Já não são longínquos os urros amedrontadores. Não há fio que me conduza à saída do labirinto.