segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Com [Simone] nome [Cândido] de amor

    
A loja é de CDs, DVDs e livros. Um pequeno livro em uma prateleira promete brindar-me com o significado e a origem dos nomes. Abro-o a esmo. Na página, leio: SIMONE – do hebraico – aquela que ouve. A bebida dessa fonte oculta não me deixa ébria. Simone não é decididamente “aquela que ouve”, pois que, no caso, quem ouve sou eu.

E ouço o que traduz perfeita parceria. Não nessa loja, mas em outra, de prazeres gratuitos. Meu amigo Tuca Zamagna (Desinformação Seletiva) presenteia-me com material belíssimo sobre Simone Guimarães e Cândidos, seu novo CD, que traz melodias e harmonias sofisticadas em voz que vem de Santa Rosa de Viterbo. Sim, ela, Simone, paulista de voz belíssima, junto a ele, Isaac Cândido, cantor e compositor cearense.

Deliciou-me, no material recebido, a música Com nome de amor*. Tanto vento... tanto verbo... (ai, e tanta dor inconjugável!) inspiraram-me a imaginar como noticiaria a turnê de lançamento do CD, que inclui shows em São Paulo (07/12), Ribeirão Preto (09/12), Brasília (15/12) e Rio de Janeiro (21 e 22/12).

Confesso, entretanto: a música embargou-me a imaginação. Agora sou apenas ouvidos. Mas estendo à visão o prazer do que me foi enviado. Eis Simone Guimarães pelas lentes de Romeu Antunes:




De resto, eu, que pouco sei sobre os mistérios da linguagem objetiva, deixo o convite aos amantes da boa música brasileira:

- para os shows (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=163678),

- para mais informações sobre Simone (http://www.mpbnet.com.br/musicos/simone.guimaraes/index.html),

- para conferir um pouquinho mais dessa frutífera parceria (http://www.youtube.com/watch?v=bu3iVyCueZk).

(*) Essa música ficou "fora" do CD, mas está no vídeo citado acima.
    

sábado, 27 de novembro de 2010

O fecho



Sabe quando a mulher veste sutiã que tem fecho na frente e o abraço é tão apertado que solta o fecho – às vezes até quebra o fecho? Pois é, aconteceu comigo. Episódio que ficará registrado na memória pelo cômico da situação, em contraste com a ansiedade da expectativa. Sutiã vermelho, lindo, com renda, novo!

Sabe o que acontece quando se tem um sutiã vermelho, lindo, com renda, novo... e com o fecho quebrado? Meu Deus! Ainda existem armarinhos, lojas de aviamentos? Era assim que a gente chamava há alguns poucos anos, quando minha mãe era costureira bem procurada e as mulheres ainda tinham o costume maior de comprar tecidos em vez de roupas prontas.

Despi-me da sensualidade das curvas femininas realçadas pelos detalhes da lingerie. Voltei à infância das caixas de costura cheias de bugigangas e cores que seduziam o olhar da menina vaidosa. Chegou até o ouvido o eco da fala da mãe pedindo para correr à venda: um retrós de linha branca, 2 metros de elástico... Revivi a atração da intensa variedade de belas rendas, tirinhas de strass e lantejoulas, fitas de cetim, sutaches, passamanarias e sianinhas. No ímpeto do espírito artesão decidi consertar a peça.

Aproveitei o sábado e saí em busca do tal fecho. Não queria o prejuízo do sutiã novo sem uso. Vasculhei os cantinhos do centro da cidade, uma porta comercial mais tímida, sem vitrine, mas que vendesse o equipamento. Nada! Lãs, linhas, agulhas, botões, alfinetes. Porém, nenhum fecho delicado que se encaixasse na delicadeza do artefato.

Decepção. De propósito de arrebatamento fálico a investimento falido! Entretanto, com uma pontinha de esperança – precipitado ainda desfazer-me dela – aposentei a lingerie no fundo da gaveta. O desejo agora é tão somente de correr de volta para o abraço.
     

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Descer - Subir

    
Na minha visão extremamente ocidental, de saberes formais acumulados, digo subir para o norte e descer para o sul. Um motorista goiano conversa comigo, abala minhas certezas. Subir é pra Minas – altitude desenhada concretamente nas serras do percurso acidentado. Descer a gente desce é pros lados de Tocantins. E eu vou me apaixonando pelos poemas dos becos de Goiás. Aprendendo com Aninha o segredo dos doces sem açúcar.

Houve um tempo, adolescente desajeitada, um poetar inconsciente, preso à dificuldade de expressão oral e à necessidade mais premente de transformar as horas em pão... Nesse tempo, eu descia divagando com Manuel Bandeira do Capiberibe à Guanabara. "Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte? — O que eu vejo é o beco".

Morri em várias noites lacrimejantes acreditando que o verso mais bonito da Literatura Brasileira fosse "a vida inteira que podia ter sido e que não foi". Mas, se fui moça de letras tristes, soprou-me recentemente um vento de través, da nuca para a menina dos olhos, que é possível amadurecer com outras cores. Apurar, no fruto, perfumes outros.

Agora, minha janela se abre para a Serra Dourada. Todas as leituras de minha vida costuram-se em um novo mapa-mundi. Azuis e verdes google são nada quando se trilham tempos e espaços reais por estradas que desconstroem a noção norte-sul.

Descer-subir. Agarro-me à fala do motorista. É a minha certeza neste momento. Eu, que ainda preciso tanto de certezas,... vejo-me diante de novo verso para chamar de o mais bonito da Literatura Brasileira: "tu encontrarás, sempre, no teu caminho, alguém para a lição de que precisas".


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Dança




Aos sábados
ela ouve música clássica enquanto ele joga bola.
Tudo parece tão perfeito!
O que ninguém sabe
(e ela nunca vai contar)
é que num cantinho seu de tálamo e fantasia
a música muda de ritmo.
E, a cada vez que as pernas dele dançam
na bola, na grama, no lance fantástico,
ela também dança.
De corpo inteiro, de alma inteira
entrega total...
uma casa que não a sua
um outro alguém que não ele
um amor que transcende à música e ao futebol.
Tudo tão perfeito!

domingo, 3 de outubro de 2010

A dona da história

  
Porque li no decorrer desta semana um romance (autobiográfico?) de Salwa Al-Neimi, intitulado “A prova do mel” (Editora Objetiva, 2009), hoje vou despir minha crônica de quaisquer personagens e deixar fluir pensamentos próprios. Não me lembrem, portanto, daquela máxima que já repeti, de algum lugar, de 90% invenção e 10% mentira. Faço isso, a princípio talvez, movida pela similitude. O romance de Al-Neimi é considerado erótico. Eu própria já disse, por ocasião do lançamento de meu livro de poesia, que há em meus poemas uma grande dose de erotismo. Os leitores mais atentos decerto já o vislumbraram também em várias de minhas crônicas.

Mas trazer à tona esse tema em dia de eleição? Um amigo meu chamou Dilma de assexuada. No momento, devo confessar, a comparação foi inevitável, pois que Lula sempre me seduziu – e não só pelo seu discurso. Confesso ainda mais, sentindo o enrubescer das faces: quando vejo a imagem de Lula estampada em revista ou jornal (sim, impressa; na TV não), quando vejo, me dá uma vontade de homem com a barba por fazer, o contraste entre a pele áspera e a suavidade feminina...

Gosto de Dilma pela força, sem afeto, sem sensualidade, sem nenhuma ardência no rosto (por sinal, acho muito bom que seja assim). Não pretendo, entretanto, fazer uma crônica política pseudoerótica ou vice-versa. Aliás, odeio crônicas políticas; faltam-lhes paladar literário. Tenho, às vezes, ojeriza a Ferreira Gullar por isso. Gosto do poeta, apenas. Mas há algo que, após todo esse período de campanha eleitoral e de e-mails descabidos lotando minha tela, preciso dizer, num misto de desabafo, constatação, interrogação: Por que, há quase 50 anos do golpe militar e há mais de 20 da queda do muro de Berlim, tantos brasileiros ainda revelam um medo descomunal do comunismo?

Cá entre nós, até ouso uma hipótese: há uma menção de Salwa Al-Neimi, n’A prova do mel, exatamente à página 70, a um episódio televisionado ocorrido à época da Guerra Fria, em que uma senhora soviética responde a um norte-americano “Não há sexo na União Soviética...”. Uma Dilma assexuada e com um passado “comunista” deve soar, para muitos, como uma ameaça... A estes posso sugerir que ouçam uma marchinha de carnaval.

Ah! Sobre o romance lido, pretendo ainda escrever uma resenha. Por ora, deixo-lhes um fragmento do capítulo derradeiro: “Eu sou a dona da história (...). Eu conto e brinco com ela como eu quiser.”


    

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Esse meu gosto

     

Setembro acaba e se vão com ele os coloridos dos ipês... à ausência de música abro a torneira da pia do banheiro... bem sei... amanheci nostálgica... Não se iluda, porém: posso ter escrito isso apenas para exercitar minha paixão pelo uso das reticências. Tenho andado em uma fase de compor poemas, uma lírica entorpecente que me tira a exatidão necessária à crônica. No entanto, há em mim um desejo grande de ser exata. Não me basta o azul. Quero o azul petróleo intenso. É esse meu gosto pelo detalhe que me faz perceber que você vive, apesar do meu silêncio.

Bem sei... qualquer nostalgia que hoje me alimente a alma vai ter gosto de café recém-coado e de poesia de João Cabral de Melo Neto se encorpando em tela luz balão. Não se iluda, porém: posso ter escrito isso apenas para falar do que já li. Porque quero a educação pela pedra. Na ponta do cinzel, lições de estruturalismo e geometria. Estou cansada de tudo que é surreal e metafórico. No entanto, não gosto de precisar; gosto de querer, aliás, de quereres...os calmos e os urgentes. É esse meu gosto pelo querer que me faz perceber que você vive, apesar da minha esquiva.

Porque quero, mas me escondo. Só apareço na necessidade, no tão sem tempo do meu cotidiano, nas suas horas não contabilizadas. Sucessivas e exaustivas aulas de economia: equidade, qualidade, sustentabilidade... e um “eu” retraído... Não se iluda, porém: adoro desperdiçar – com fartura – meus sorrisos e minhas lágrimas. Sei ser amante, mesmo que não amada. E, quando amada, sei ser abusada. Não gosto do pouco; não me basta o devagar. É esse meu gosto pelo excesso que me faz perceber que você vive, apesar da minha negação.

Se qualquer coisa me salvasse e esse dia sem anúncio nenhum fosse só uma comédia hollywoodiana e na ponta dos dedos surgisse apenas a palavra nua e crua e você pudesse se iludir e eu pudesse ser sua nesse exato instante e a primavera me devolvesse floridos os sonhos da infância... meu gosto seria um só: perceber a vida que há em mim porque há você.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ah! humores...

   
Em frente ao computador, tentando escrever. A mente não se dá conta da ansiedade dos dedos estirados sobre o teclado. Não sei o que me acontece às vezes, tanto dizer transbordando no peito e o pensamento na recusa da verbalização. Queria começar este texto assim: A alegria é tamanha. Um belo sonho. Um belo despertar.

Descubro, sem aflição alguma – é, o comodismo! – que meu mar de rosas é construção fadada ao desmoronamento antes mesmo de se consolidar como projeto. Os vãos das venezianas não me mostram tons de azul. O céu desfila, da hora inicial à hora poente, um cinza agourento de mudanças climáticas. Urge que eu me afaste dessas leituras de jornal. Elas andam a embaçar-me a inspiração.

Abro o dicionário. Quantos significados para a palavra “humor”? Desde uma possível sinonímia para índole, uma interpretação para estado de espírito, até uma explicação anatômica, advinda das investigações filosóficas, em que se associa humor às secreções corporais. O que se faz certeza entre minha sala de trabalho e o clima é que o dia se consome nessa dolente esquiva.

Chego em casa sentindo que se esvaíram todas as minhas energias (menos aquelas acumuladas em pneuzinhos que me constrangem ante o espelho e o guarda-roupa). A vida era pra ser uma experiência fascinante, mas descubro-me cansada e triste. Razão para tal? Questão de humor?

Não, não se faz momento para a reflexão. Melhor tomar um banho. Espaço para o despir: das roupas, das palavras presas, do cansaço, do comodismo. Banho assim, de água corrente, de temperatura amena, de janela semicerrada e de vapor condensando gotículas pelas paredes. Sem nenhuma consciência ecológica! A água a deslizar pelas curvas, as desejáveis, e as indesejadas também.

Sabonete líquido, cremoso, espesso... perfume que atiça os sentidos. Cheiro inebriante que lança o corpo na aventura do êxtase. Pelo tato vem a sintonia entre corpo e mente. O mar de rosas é projeto viável. Milagre de laboriosa arquitetura que desenha ilusões entre o corpo molhado e ensaboado e as sombras projetadas pela luz no vidro do box . Já não há mais dedos ansiosos ante o teclado. Ah! humores... Vem, em explosão íntima, um novo texto, em cuja primeira linha se lê: A alegria é tamanha...
 

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Aquele amor


Eu te amo ele dizia a ela e ela sabia que era verdade. Ele falava do perfume dela, gosto tanto! Ele a amava muito. Tanto amor que não cabia dentro dele. Isso lhe causava muito receio. Mas ela ria quando, no auge do gozo, ele falava um palavrão. Ele dizia até me esqueço que estou com uma dama. Aí ele mudava o vocabulário e amava mais ainda a cara de satisfação que ela fazia na entrega.


Um dia, depois de fazer amor, ele lhe perguntou se ela não sentia vontade de lhe bater. Ela disse não, por quê? você sente? Ele lhe confessou que sim. Ela riu e o beijou e se ofereceu de novo, inteira. Ele a amou, amou, amou...


Depois ele mergulhou em silêncio profundo. E não soube o que fazer com aquele grande amor. E foi se afastando...


Naquela noite ele entrou no bar. Ele nunca imaginou que a encontraria naquele lugar. Ela, depois de tanta água nos olhos, ainda mais linda! Falava coisas que denunciavam as marcas de sua ausência. Eu te amo ele disse a ela e ela soube que era verdade. Ela sabia que ele nunca deixaria de amá-la. Ela não falou nada. Saíram dali juntos. Silêncio profundo no pouco espaço daquele carro.


Silêncio também no leito que devolveu o sorriso a ela e que despertou nele aquela vontade novamente. Ela entendeu, beijou-o, deixou acontecer.


Horas depois, quando ele acordou, não sabia explicar onde estava. Por entre os vãos da grade via o rosto dela, amava a cara de satisfação que a fazia ainda mais linda, e enxugava a água de seus olhos. Tanta! De repente isso lhe causou muito receio. Viu o lençol, sentiu o perfume dela. Chegou o lençol ao rosto, foi enrolando, apertando. A imagem dela mais próxima. Eu te amo tanto!...


Alguém teve a ideia de enterrá-los na mesma cova. Aquele amor era pra sempre.


Cruz por Petr Kratochvil