terça-feira, 21 de maio de 2013

Conjugações

 




O meu gosto é pela segunda pessoa.

Não sei por que

insistes na terceira.

E, na tua angústia toda

de homem que do amor se desfez

por medo da liberdade,

assistes assim a mim

em outros braços.

Porque eu, sábia na arte dos simulacros,

faço tu de qualquer outro ele.

   
   

domingo, 24 de março de 2013

pela luz dos olhos teus *

 
Imagem da internet

Verificou uma última vez se havia novas mensagens em sua caixa de correio eletrônico. Em seguida, pegou sobre a mesa os óculos escuros. Sairia para o almoço em alguns minutos. Não sabia se tinha fome. Via-se sem vontade de comer. O relógio lhe dava uma hora diferente da de seu corpo. A claridade externa atingiu seu rosto como uma lufada de ar gelado. Sentiu paralisar-lhe o nervo óptico. Ajustou rapidamente os óculos atrás das orelhas. De súbito, trazida pela claridade, veio-lhe a imagem dela. O rosto aparentemente sereno, nem alegre nem triste, e aqueles olhos cujo segredo ele não ousava decifrar.

Fosse ele dado à lírica, buscaria dizer qualquer coisa que se assemelhasse à contemplação machadiana dos olhos de ressaca de Capitu. Tivesse ele algo de freudiano e sua mente seria um pulular de interrogações tão complexas quanto a força daquelas pupilas. Ele, entretanto, limitava-se a tomar distância, sem ânimo para enfrentar o desconhecido.

Há que se observar, porém, que o desconhecido ata a vontade própria, feito profecia de oráculo. Quanto mais ele fugia da esfinge, quanto mais calava o espírito de Tirésias, tanto mais o olhar dela se materializava. A imagem tornava seu andar mais lento. Parecia-lhe que se aproximar do carro era fazê-la surgir sentada no veículo – aparição milagrosa – e ela deixaria propositalmente a mão esquerda sobre a perna, solicitando, em gesto mudo, que ele a segurasse. O toque das mãos era sempre tão bom, misto de conforto e desejo! O desejo que acabava por prender seus olhos aos dela.

Ah! Se jogar os óculos escuros ao chão e pisoteá-los esmagasse aquela visão, ele o faria, sem pensar na dor que o excesso de sol lhe causava. A dor da atitude que ele tomara dias antes lhe impingia sofrimento muito mais atroz. Como tirá-la da sua vida daquela forma, sem nenhuma explicação e, ainda pior, sem dizer a ela que estava a afastá-la? Ele continuava a mandar-lhe mensagens e a fingir que tudo corria bem. Ele se enxergava covarde, desonesto, cafajeste. Todos os pecados do mundo eram pedras que sua consciência lhe atirava, independentemente de qualquer fala bíblica de perdão.

Entrou finalmente no carro. A fome não chegara. Começou a dirigir. A cabeça em desalinho... Em movimento involuntário, as rodas do automóvel tomavam direção diferente. Ele se viu, minutos depois, na pequena rua de terra, do alto do morro, repleta de buracos que impediam sua passagem. Não havia outro jeito a não ser parar o carro. Desceu. Olhou para o barranco que o separava do resto da cidade. As casas todas a sua frente eram só janelas, todas elas escuras, cegas. Puxavam-no para baixo. Ondas, os olhos dela, a arrastar-lhe, obrigando-o ao desvendamento do segredo. Como negar sua impotência? Como fugir do destino? Num ímpeto, atirou longe os óculos escuros.

* Originalmente título de música de Tom Jobim.
   

quinta-feira, 7 de março de 2013

Quando a páscoa não vem...

   


Era março. Sua necessidade de oração crescia, enorme. A angústia que a consumia buscou pretenso alívio nas falas decoradas do ritual religioso. Há muito as quaresmeiras floridas eram retrato perdido de seu passado. Agora, o roxo das vestes sacerdotais pintava os já desbotados quadros da via sacra em sua lembrança. 

Era ela quem caía mais uma vez, sem ninguém que a auxiliasse, que enxugasse seu rosto, que acompanhasse seu trajeto, que amenizasse sua dor. Ela era sozinha na multidão de fiéis. Alguém lavava as mãos? Talvez pior. Alguém lhe sorria. Aproximava-se dela ao fim da cerimônia. O rosto, até sereno, supunha que o cumprimento verbal apagasse todas as faltas.

Aquele encontro, em certo momento, seria mesmo inevitável. Ela voltou a sentar-se no banco de madeira escura. Queria falar-lhe sim, mas do jeito honesto que aprendera na infância: olhando-o diretamente nos olhos. Entretanto, não conseguia encará-lo. Disfarçava o foco, concentrando-se na distorção luminosa dos painéis vitrificados.

Havia nela uma grande vergonha. Sabia-se usada, enganada, roubada, traída. De seus lábios, no entanto, só um pedido: que ele a deixasse sair daquela situação com um mínimo de dignidade. O pouco proferido era quase o latim das inscrições monumentais, como se de fato fosse sua língua materna. Dolor supremus.


Ele não a confortou. O silêncio era lança a ferir-lhe o peito. As mãos dele, abaixadas, afastadas, inertes, eram os cravos da crucificação. Não, não haveria vestes resplandecentes. Apenas o canto longínquo de um galo.
   


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O medo

 
(Montagem sobre fotografia de Yun)


O medo escolheu-me como eterna companheira quando eu ainda era criança e, pela primeira vez, tive um pesadelo. Na ânsia por socorro, compreendi que a cama da mãe era inacessível para os sustos da madrugada. Desde então persigo soluções paliativas.

Por incontáveis vezes, evitava a televisão, até mesmo programas infantis aparentemente inofensivos, como aqueles seriados japoneses cujos heróis salvavam o planeta de seres alienígenas. Agarrava-me a orações, que eu desfiava feito contas de rosário. Transformei meu anjo da guarda em refém implorando que qualquer inimigo o visse e, por isso, fugisse. Mas que ele nunca se revelasse a mim, pois que não teria eu, sozinha e apavorada, como dele fugir. Lia tudo que me era permitido. Criava mantras, que recitava silenciosa e repetidamente até o sono me embriagar.

Adquiri alguns vícios com esse comportamento: falo sozinha, tenho sono leve, meu pensamento funciona por levantamento de hipóteses... E o principal: habituei-me ao ofício da escrita. Ela me liberta. Escrevo mesmo que não tenha ideias – papéis rabiscados pelo exercício incontido da caneta, traços e letras a esmo e, não raro, meu nome, meu nome, meu nome, até não caber mais na folha.

Nenhuma artimanha, porém, pôs-me de todo a salvo. Precisei aprender a negociar racionalmente as circunstâncias e os motivos. Aquele medo de um dia acordar e tudo em volta estar diferente, eu não reconhecer mais nada da realidade, deixei-o guardado na caixinha do impossível.

O medo de monstros, fui amenizando-o à medida que consegui delinear exatamente a face de quem poderia me aterrorizar. Monstro só é digno do nome, se desfigurado. Se tem rosto, eu encaro!

O medo de barata continua. Aliás, este se desenvolveu: tornou-se pavor, fobia. É bom mantê-lo. Endossa o coro dos que afirmam que ter medo de baratas é coisa tipicamente de mulher. Faz-me ultrafeminina ante qualquer insinuação de igualdade de sexos.

Certeza e coragem são para os heróis. Eu tenho medo da solidão, do diagnóstico do médico, de ficar grávida, de perder um filho, de atravessar a esquina a pé quando não sei se o motorista vai mesmo obedecer à sinalização. Eu tenho medo de entrar de carro numa rua sem saída.

Eu tenho medo das saídas.
  
    

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A agulha

 



Bordava roupas de cama, panos de prato, toalhas de mesa. Eram linhas e agulhas que perpassavam as tramas do caprichado enxoval. Não era, entretanto, pensando em seus núbios sonhos de moça que bordava. O tecido marcado, por si só, era sua satisfação. Agradava-lhe vê-lo não mais branco, intacto. Era como o prazer da folha preenchida a tinta. Para o leitor, tantas palavras! Para o analfabeto, o espanto impingido pelo enigma.

Colecionava os elogios recebidos. Às vezes, cuspia um deles sobre agulha ingrata que ousasse lhe ferir. O sangue estancava em segundos!

Aconteceu, porém, um dia, de perder o domínio sobre a agulha. Enamorara-se. Os olhos foram tomados de devaneios. O corpo e o coração, crivados de êxtase... Passou a bordar sonhos pela madrugada, sorvetes à tarde e audácias ao cair da noite.  Tão mais o tecido se preenchia, mais era a bem-aventurança! Acordava desejando as marcas impressas pelos ventos da fortuna.

Manhã veio, no entanto, sem nenhuma alvíssara. Na mão da mãe via-se o requinte do papel opalino que ostentava luxuoso monograma. Na mão firme da mãe, diferente da sua, que subitamente ignorava qualquer rigidez... Com que então, o amor que julgara só seu estava predestinado a outros lençóis, de bordadeira nem tão afamada?

De ímpeto, dirigiu-se ao quarto, apossou-se dos apetrechos de costura. Ali, a agulha fez-se arma. Deixou que o sangue brotado escorresse. A marca no tecido foi outra.  Mesmo assim, entranhada nos fios.

Linhos, cambraias, cânhamos... Aos poucos, o novo bordado lançava mágoas escarlates sobre os cortes. Os tecidos vivificavam-se. Havia quem nada entendesse. Fofocas e condenações substituíram os elogios. Ela mais e mais caía de amores pelo novo enxoval.
     
  

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Registros (a)temporais de pássaros e janelas

  



1.
Brotavam passarinhos no campo. Eram pinceladas de cores em movimento. E eu nem precisava falar, pois a música banhava de som a imensidão azul. Quem inventou de colocar grade nesta janela? Não fosse a presença ingrata, eu poderia debruçar-me à vontade. Daqui não se cai. Quando muito, aos mais descuidados, esta janela poderia abreviar o momento das asas prontas para voo maior. Entretanto, impossível tal deslize, se o canto, surgido da fragilidade de pequenas criaturas aladas, inspira atenção máxima. As grades da janela dividem o mundo entre lá e cá. Que importa a hora dada pelo relógio? A manhã precisa acabar.

2.
Manhã chorosa. Não há cachoeira nem nesgas de céu azul. Apenas um manto acinzentado que pede janelas fechadas. Nem assim os pardais se aquietam. Também o barulho de carros. Eu só queria dormir mais um pouco. O despertador, ingrato companheiro, não me permitiu e todos os sons, como a fugir da fina água, adentraram o quarto. Meus ouvidos têm abrigado o mundo. Os ouvidos, os olhos, a memória... Busco, de conteúdos retidos, a paisagem necessária à animação do corpo. Momentos há em que se faz imperiosa a construção de fantasias. Imprescindível silenciar os pardais. Puxo da arma eletrônica melodia mais sinestésica. “Bem-te-vi ... tua boca pingava mel.” O tempo também pingava. Lá fora. Não esse aqui do relógio, cruel...

3.
As grades do alçapão colhido a esmo em terras outras pediam restauração. Pintei-as de branco. Acreditei assim que se tornariam mais visíveis os pássaros ausentes. O alçapão virou enfeite no beiral da janela. Ornou com o relógio de parede. Algo no ambiente, porém, adivinhava a dor do canto inaudível. Quem era a ave triste, se não aquela que inabitava o artefato decorativo? Não se musicam perguntas. Elas não cabem na pauta musical. Abandono a janela, abandono a visão externa. O ouvido faz movimento inverso e capta sons minúsculos de lágrimas. O pássaro encolhe-se sob as asas. Oh, chuva!...

 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Primavera


  
Aquela era a época dos 15 anos. Eu ainda parecia criança. A escola, pela manhã; à tarde, os serviços caseiros; os sonhos, à noite. O mundo resumia-se à finitude dos quilômetros das poucas terras que eu já percorrera. Qualquer outro chão compunha a abstração geográfica da fantasia que chegava pelos livros e pela televisão.

Foi quando me interessei por árvores. Não aquele interesse da infância. Eu tinha muito medo de altura. Não era de arriscar-me em pequenas levadices inconsequentes.

O que vi nas árvores não foi possibilidade de movimento – subir, descer – usando pés e mãos. A atração se fez feito pássaro. As asas dos olhos em direção à copa florida. Espaços e aromas novos conduziam à exploração de cores e texturas novas. Eram os sentidos descortinando um mundo além do corpo.

A camisa branca do colégio vestiu-se de laivos de ipê. Os rastros da caminhada geravam arco-íris cortados de atalhos. Os pés, lépidos, pela estrada, não se queriam raiz. O pensamento, flor, flanando entre folhas verdes e nesgas azuis.

A primavera chegava. E – novidade! – trazia beija-flores.

   
  

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ondas

  

  

Penteio meus cabelos enquanto me olhas.
Os dentes do pente por entre os fios...

A incandescência dos teus olhos
desfia-me
desafia-me

Mechas contra a parede
- ondas -
refratam sons de arrebentação.

O gozo é líquido.